[Canadá] Hamilton: RBC Atacado por Patrocinar o Gasoduto da CGL

Há muitas questões a serem levantadas sobre o Natal e, como anarquistas, não somos grandes apoiadores do Papai Noel, mas ainda podemos apreciar sua qualidade sorrateira… Então alguns de nós celebramos este ano sendo nós mesmos bem sorrateiros.

Tarde da noite de Natal de 2021, houve a resposta a um chamado para o ataque dos bancos e das fontes patrocinadoras do gasoduto da CGL que está sendo forçado no povo Wet’suwet’en. Bancos – como o RBC – são alvos muito fáceis porque têm muitas filiais pelas cidades em que vivemos que têm relativamente pouca segurança à noite. Uma filial de Hamilton, em Upper James, foi revisitada e redecorada.

Entramos pelas primeiras portas do banco e enchemos seus caixas eletrônicos de cola, então adicionalmente colamos a maçaneta da porta de entrada ao banco. Na saída, deixamos a mensagem “SEM GASODUTOS EM TERRAS ROUBADAS” nas portas para que todos vessem. Essa foi uma ação muito fácil e replicável e encorajamos que outros o façam. É possível que o ataque contínuo contra bancos como o RBC comecem a comer os lucros com o gasoduto (se conseguirmos custar-lhes dinheiro o suficiente) e os convença a retirar o apoio financeiro ao projeto. E, se não, é um “vão se foder” real e catártico contra as instituições que estão destruindo tudo o que há de bom no mundo.

Enquanto entramos neste espaço limiar entre Natal e Ano Novo, alguns dos dias mais escuros do ano, somos lembrados de reparar no que ainda importa para nós e no que esperamos trazer para as nossas vidas na volta ao redor do sol que está por vir. Enquanto vemos começar o que pode ser outro inverno de COVID, encorajamos todos e todas nossas camaradas a olhar para as partes mais quentinhas de seus corações, onde todos ainda queremos queimar as prisões e os bancos e que nossos amigos e amigas segurem nossas mãos e dancem em volta das chamas. Enquanto mantermos esse brilho vivo em nossos olhos, tudo ainda será possível.

Fonte: https://north-shore.info/2021/12/26/hamilton-rbc-attacked-for-funding-cgl-pipeline/

Tradução > Sky

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/27/canada-defensores-da-floresta-humboldt-solidariedade-com-defensores-de-terras-indigenas/

agência de notícias anarquistas-ana

No pensamento
Um esqueleto abandonado –
Arrepios ao vento.

Bashô

[Espanha] Lançamento: “Memorias de un anarquista rumano”, de Mechel Stanger

Originalmente escrito em iídiche, Memorias de un anarquista rumeno abre uma janela para observar o variado, diversificado e colorido anarquismo balcânico e europeu antes da Segunda Guerra Mundial.

Acompanhando o autor neste livro, conheceremos o anarquismo graças a um panfleto de Malatesta e da exortação de um companheiro: “É hora de você ser um ser humano!” Da poesia revolucionária passaremos à ação: abandonamos o exército romeno e vamos ao exílio na Berlim revolucionária nos anos 30.

Lá descobriremos o movimento anarquista alemão e Rudolf Rocker, com quem estabeleceremos uma amizade que durará até o final de seus dias. Sem parar, visitaremos o movimento libertário holandês, desfrutaremos da hospitalidade dos judeus anarquistas exilados na França e nos refugiaremos na Suécia. Um país que não hesitaremos em deixar para defender a Revolução Social em Barcelona. Estas são as memórias de um anarquista, de um padeiro, de um esperantista que nunca duvidou de que a humanidade era sua família e o planeta sua casa.

Memorias de un anarquista rumano
Mechel Stanger
Calumnia Edicions, Colección Colossus, 17. Mallorca 2021
75 págs. Rústica 18×13 cm
ISBN 9788412432527
8,00 €
calumnia-edicions.net

agência de notícias anarquistas-ana

Cresci com gorjeios
sobre a jabuticabeira
entre os sabiás.

Urhacy Faustino

Kropotkin e uma palavra entre política e natureza

Por Leonardo Nascimento

Indagada sobre o que andava fazendo para se entreter durante a pandemia, a célebre cantora e multiartista Patti Smith contou, numa entrevista publicada em 19 de junho do ano passado no jornal espanhol El País, que, entre outras coisas, estava às voltas com a leitura de Piotr Kropotkin (1842–1921), pois havia se interessado pelo anarquismo. Pouco antes, no dia 9 daquele mesmo mês, Patti publicara em seu perfil no Instagram (@thisispattismith) uma foto do livro The prince of evolution (2011), de Lee Alan Dugatkin. Na legenda, explicou que se tratava de uma obra de introdução ao pensamento do cientista e revolucionário russo, e apresentou detalhes de sua biografia: “Nascido na nobreza, Kropotkin tirou todos os mantos e passou a vida trabalhando e expondo os princípios científicos e as verdades do Apoio Mútuo. Quando palavras não foram suficientes, ele voltou-se para a ação; como um cientista ambiental e anarquista benevolente […]”, escreveu a cantora.

Figurando como um dos mais influentes nomes na história das lutas libertárias, Kropotkin vem pouco a pouco chamando a atenção de outros públicos, a despeito do constante apagamento das contribuições anarquistas ao pensamento político e científico. Ainda que seja difícil assegurar todas as razões por trás desse renovado interesse, seus livros voltam a circular, sobretudo como consequência do fortalecimento das experiências autonomistas e anarquistas no século XXI, da reavaliação de suas teses por historiadores/as e filósofos/as da ciência, dos recentes eventos e publicações motivados pelo centenário de sua morte (em fevereiro deste ano) e, principalmente, da enorme difusão de práticas de “apoio mútuo” no decorrer da pandemia de covid-19, como bem observou a escritora e historiadora Rebecca Solnit em sua coluna no The Guardian, em 14 de maio de 2020. [nota 1]

Em seu texto, a colunista lembrou que a ideia de “apoio mútuo” é uma referência direta a Kropotkin e sua obra Apoio mútuo: Um fator de evolução, publicada em 1902. Nela, o naturalista russo propôs uma releitura da teoria da evolução de Charles Darwin (1809–1882), defendendo que a “cooperação” é um fator tão ou mais determinante para a sobrevivência das espécies, e, portanto, deveria ser considerada como um princípio fundamental da evolução, ao invés de só olharmos para as práticas de “competição”.

Rebecca Solnit argumentou que em momentos de crises profundas é comum reaparecem clichês sobre a brutalidade da natureza humana. Dessa perspectiva, o melhor que se poderia esperar das pessoas em meio a uma pandemia seria a indiferença egoísta; na pior das hipóteses, elas se voltariam para a violência de todos contra todos. Mas, como ela destacou, diversos estudos demonstram que não é assim que a maioria das pessoas se comporta diante de grandes desastres coletivos, ainda que obviamente existam pessoas egoístas e destrutivas (e estas muitas vezes ocupam posições de poder, já que vivemos em sistemas políticos que recompensam esse tipo de personalidade e esses princípios).

Para tratar do crescimento das ações de apoio mútuo diante da pandemia global, Solnit elencou diversos atos e projetos descentralizados de solidariedade e reciprocidade, que, àquela altura, espalhavam-se por todos os lados como resposta à catástrofe viral e política. Se o que se via nos noticiários eram imagens sombrias de grupos anti-vacina em frenesi, oportunistas estocando álcool em gel para revender a preços exorbitantes ou mesmo pessoas armadas exigindo o fim do isolamento social, a escritora defendeu que as ações de apoio mútuo então em voga deveriam ser examinadas com atenção e tomadas como base para a construção de um futuro pós-capitalista. Afinal, por que deveríamos sonhar com o retorno a um mundo que já havia se transformado em um verdadeiro desastre bem antes da pandemia?

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

http://suplementopernambuco.com.br/resenhas/2809-kropotkin-e-uma-palavra-entre-pol%C3%ADtica-e-natureza.html?fbclid=IwAR2Yhv5XqRlwUZpMZ0oQz1Lyu0a-Sa8-aawvptF3NeQK68e-gHnijqSVTX8

agência de notícias anarquistas-ana

Brisa ligeira
A sombra da glicínia
estremece

Matsuo Bashô

[Canadá] Toronto: Apologia ao ódio e genocídio não tem vez no campus – um relato do protesto antifascista de 18 de dezembro na Universidade X

Em 18 de dezembro, deu-se uma coalizão de antifascistas/antirracistas, consistindo em organizações de esquerda, sindicatos trabalhistas e membros da comunidade reunidos na Universidade X (a escola originalmente nomeada em homenagem ao genocida Egerton Ryerson, que teve um papel crucial no sistema canadense residencial-escolar). Essa manifestação originalmente pretendia ser um contraprotesto aos assim-chamados “Ryerson Conservatives,” [Conservadores de Ryerson,] que contavam com a participação do notório político babaca Maxime Bernier, bem como outros políticos de extrema direita/apologistas de genocídio e porta-vozes antivacina. Contudo, pouco depois que vários grupos e organizações declararam sua intenção de promover um contraprotesto, o evento foi cancelado. (-Sua razão ‘oficial’ para o cancelamento mudou algumas vezes…-) Apesar do cancelamento, ainda havia a preocupação de que alguns extremistas de direita tentariam ocupar o espaço da Universidade X de qualquer forma; como resposta, a coalizão continuou a ideia do contraprotesto.

Nós nos reunimos cedo em frente ao espaço da Universidade X que os extremistas de direita planejavam utilizar e procedemos com a ocupação por várias horas. No início, praticamente não houve indícios de extremistas de direita por lá; contudo, depois de mais ou menos uma hora, começamos a ver e ouvir sua turba descendo a rua em nossa direção. Haviam muitas bandeiras canadenses visíveis, assim como bandeiras nacionais da Antiga União que os fascistas e supremacistas brancos adotaram. A multidão também tocava música muito alta, o que nos alertou de sua presença. Com todo o barulho e suas bandeiras bloqueando uma boa visão, foi difícil de determinar quantos deles haviam, porém estava claro que eram muitos. À medida que continuaram a avançar com o que parecia ser uma escolta policial, pareceu que a violência que muitos na coalizão tinham antecipado estava prestes a começar. Em resposta, nós nos alinhamos e bloqueamos a rua e sua música foi rapidamente afogada por gritos de algo como “Fascistas não são bem-vindos aqui!”, “A rua é de quem? Ela é nossa!”, ou algo de mesmo efeito.

Ao ver e ouvir a multidão, (posso apenas presumir que essa foi a razão,) os de extrema direita viraram à direita, por outra rua, e foram embora. Alguns de nós assumiram que estavam dando a volta para surgir por trás de nós, mas isso não aconteceu. Não os vi ou ouvi depois disso. Seguindo seu desvio, continuamos a ocupar o espaço para assegurar que não poderiam fazê-lo.

Sua apologia ao ódio e genocídio não têm espaço no campus, nem em qualquer outro lugar!

Fonte: https://north-shore.info/2021/12/21/toronto-hate-and-genocide-apologism-have-no-place-on-campus-an-account-of-the-dec-18th-anti-fascist-rally-at-university-x/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Vento refrescante
que se contorcendo todo
chega até aqui.

Issa

[Canadá] “Secolo Nuovo”: Filme e resenha

Nós temos o prazer de anunciar tardiamente a publicação de Secolo Nuovo; or, The Times of Promise (Século Novo; ou, Os Tempos de Promessa), publicado pela Detritus Books de Olympia, Washington. Esta obra de ficção e história anarquista levou mais de uma década para ser concluída e foi moldada por muitas mãos, incluindo a nossa. Gostaríamos de parabenizar os pesquisadores, arquivistas, historiadores, editores e escribas ingratos que tornaram este livro uma realidade.

Para honrar o conteúdo do livro, incluindo aquele que escapou às páginas, estamos alegres em lançar nosso último filme L’epoca D’oro (A Era de Ouro), uma crônica de rebelião da década de 1880 até a década de 1910. Incluídos no filme estão guerreiros Cree lutando contra o estado canadense, guerreiros Apache lutando contra o estado mexicano e estadunidense, anarquistas lutando contra todos os estados da terra e um inventor excêntrico chamado Nikola Tesla, que está determinado a criar um sistema planetário de energia limpa e gratuita. Todos esses eventos são abordados em Secolo Nuovo, e nosso filme pode ser visto como um companheiro do livro, ampliando seu alcance geográfico e mental.

Também incluído está a resenha de Secolo Nuovo por Marieke Bivar, recentemente publicada no The Fifth Estate, o jornal anarquista de mais longa data dos Estados Unidos.

Como sempre, esperamos que esses trabalhos possam ajudar nas suas atuais lutas, sejam elas quais forem.

Vida Longa a Anarquia!

Valorizando o Conhecimento Secreto de Fulvia Ferrari

“Há pessoas nesse mundo comprometidas em espalhar a rebelião o mais longe possível. Elas aparecem em meio ao desastre e guiam as pessoas para longe dos destroços. Elas carregam uma chama secreta que pode infectar cidades inteiras com seu brilho. Fúlvia carregou essa chama junto com muitas outras, vivas e mortas, e elas passaram a chama sagrada para nós. É possível que Fúlvia nunca tenha tido filhos. Talvez essas crianças sejamos nós.”

The Flames of Fulvia Ferrari (As Chamas de Fulvia Ferrari) por The Cinema Committee

Por Marieke Bivar

O romance Secolo Nuovo é parte ficção especulativa mágica, parte história abrangente do impulso da revolução anarquista.

Conta a história de humanos resistindo ao imperialismo, colonialismo, assimilação, capitalismo e outras forças opressivas, desde tribos indígenas européias lutando contra o Império Romano, até anarquistas franceses resistindo para defender a Comuna de Paris, ou indígenas mexicanos tentando mandar de volta os invasores ianques no que agora é a Califórnia.

Secolo é também um abrangente registro ficcionalizado das brutais lutas trabalhistas de trabalhadores das docas e trabalhadores marítimos que foram forçados a entrar em guerra contra os patrões exploradores de São Francisco e do mundo na virada do século 19 e do racismo anti-chinês no trabalho movimento e além.

A protagonista do romance, Fulvia Ferrari, vem de uma longa linhagem de bruxas alpinas. Então ela aprende com a sua mãe, uma renomada revolucionária e figura respeitada, na então auto-suficiente comuna da Califórnia onde as duas vivem. Fulvia sempre foi selvagem e diferente.

Os outros membros da comuna encaram ela. Ela canta na rua, bebe vinho nua no final da tarde, vive sozinha sem filhos. Mais do que diferente, ela é queer.

Ela tem aliados na comuna, mas é extremamente consciente dos olhos sobre ela, das conversas sobre ela, da influência de seu ex caso na maneira como os outros moradores  a enxergam. Ela se levanta em reuniões e fala um pouco passional demais, grita e insiste, é tempestuosa e difícil.

Seus amigos na comuna a acalmam e a apoiam, celebram a sua sexualidade, bebem com ela, beijam ela, admiram ela.

Depois de aprender sobre seus ancestrais mágicos de Les Diablerets, uma série de picos nos Alpes suíços, Fulvia começa a escrever uma história furiosamente compassada e lotada de uma resistência da “luz” contra a “escuridão”. Ela fica sentada entre os livros roubados da biblioteca dia e noite, rabiscando furiosamente.

A narrativa de seus dias na comuna é interrompida e entremeada por essa história, que se desdobra e se duplica à medida que Secolo avança, uma narrativa autoconsciente que reconhece as múltiplas experiências que podem estar contidas em uma única história.

Esta terra alternativa também apresenta uma camada de realidade conhecida como “o Sonho”, uma força poderosa e fascinante que é mais forte em um território habitado por uma comunidade indígena perto da comuna. Isso parece estar relacionado ao campo eletromagnético que alimenta o mundo, mas o Sonho é canalizado como uma espécie de força profética e confunde aqueles que não conseguem acordar dele. Fulvia e outros são mais habilidosos em navegar no Sonho, e isso faz parte de seu poder herdado, que ela está apenas começando a entender.

Os aspectos realistas mágicos do romance são apenas inferidos no início. Nesta realidade alternativa ou linha do tempo, o inventor Nicola Tesla e os descendentes das bruxas alpinas encontraram uma maneira de canalizar as correntes eletromagnéticas da Terra para alimentar o mundo. O uso desse poder terrestre profundo é pragmático e limitado. Apenas algumas pessoas podem ser “condutoras” e a corrente é irregular, imprevisível e às vezes indisponível por longos períodos de tempo.

Um coletivo de inspiração situacionista e anarquista conhecido como The Cinema Committee fez uma série de vídeos, acompanhados de reportagens, sobre a verdadeira Fulvia Ferrari. “The Strange Pathways of Fulvia Ferrari,” “The Flight if Fulvia Ferrari,” “The Great Anarchist Conspiracy,” “The Illumination of Fulvia Ferrari,” e “The Fires of Fulvia Ferrari,” foram publicados na The Transmetropolitan Review em 2019.

De acordo com a pesquisa do Comitê, a verdadeira Fulvia Ferrari pertencia a uma linhagem de mulheres anarquistas esquivas e míticas que viveram em São Francisco de 1800 a 1980. A primeira dessas mulheres, a avó de Fulvia, Josephine Lemel, mudou-se da França para São Francisco em 1873 e vive em Telegraph Hill, um bastião rebelde.

Isabelle, a mãe de Ferrari, foi uma anarquista feroz e ativa que deixou a filha pequena com companheiros em uma comuna do norte da Califórnia para lutar contra o Império Russo na Ucrânia na década de 1910. Em 1941, enquanto procurava sua mãe, que havia desaparecido em algum lugar da URSS, Fulvia Ferrari foi presa sem passaporte e foi internada por quatro anos em um campo de concentração alemão, aparentemente por falta de identificação.

Após a guerra, Ferrari voltou a São Francisco e procurou seu pai, um anarquista chamado Enrico Travaglio, que foi extremamente ativo nas greves dos estivadores da época e se envolveu na atividade revolucionária anarquista na Bay Area. O Comitê de Cinema detalhou mais de sua vida em seus artigos. O livro ficcionaliza e aborda alguns desses eventos, embora a linha do tempo do romance termine na década de 1950.

A capa de Secolo Nuovo (também o nome de um jornal anarquista que os pais de Ferrari ajudaram a produzir em San Francisco de 1894 a 1906) apresenta a única fotografia conhecida de Isabelle Lemel Ferrari, tirada por seu amigo Jack London. Esta imagem aumenta a ambigüidade deliberada do romance: trata-se de um livro de memórias fictícias de autoria da própria Fulvia Ferrari? Possivelmente.

É mais provável que seja uma homenagem ricamente ilustrada com fotografias e outras representações dos eventos e figuras históricas aos quais faz referência, escritas pelo camarada ou grupo de admiradores por trás dos artigos publicados na revista The Transmetropolitan Review. Embora densa em suas referências, a narrativa histórica do romance é fascinante e informativa e poderia facilmente servir como uma obra de referência mais acessível para anarquistas que têm dificuldades em ler histórias de não ficção.

Seja quem for o autor, o romance investiga profundamente o que você pode chamar de história mágica da resistência anarquista de um povo. Ele personaliza a história anarquista através de um fio de memória familiar e dá ao anarquismo uma história de origem mítica que remonta a 285 dC, entre uma tribo de bruxas aninhada na cordilheira de Diablerets (ou “do diabo”) nos Alpes suíços.

As histórias dos descendentes dessas bruxas alpinas e de seus co-conspiradores núbios egípcios (uma legião romana que desertou para se juntar ao movimento sob a direção de um líder chamado Maurício) são emocionantes e excitantes. Os filhos e netos desse casamento anti-imperialista descem de sua fortaleza nas montanhas e se espalham pelo mundo.

Eles carregam sua mensagem por meio de movimentos e momentos revolucionários, trazendo aqueles que lutam para definir sua revolta nas fileiras dos antigos anarquistas com as palavras ninguém é livre até ser livre, mudando o mundo através das artes, literatura, organização do trabalho, heresia e bombas.

Esta história extensa é “alternativa” na medida em que liga muitas figuras históricas reais aos antepassados bruxos das mulheres Alpinas de Lemel e sua magia da terra. No entanto, é abundantemente claro que outras histórias de autoridade têm o hábito de cooptar e reescrever narrativas rebeldes em favor dos poderes dominantes por tempos imemoriais.

A Igreja Católica realmente fez de Maurício um santo, por exemplo, e mais tarde apagou seus traços africanos das representações de São Maurício, mas a fictícia Fulvia afirma que isso foi feito para parecer que ele morreu um mártir pelo Império Romano e encobriu sua conspiração com os habitantes de Les Diablerets. Embora sua afirmação não seja verificável, a história nos lembra constantemente que não é tão inimaginável. Seria um paralelo não surpreendente de muitas outras histórias rebeldes reescritas e cooptadas, incluindo, como o romance nos lembra, a de Yeshua al Nosri, um contemporâneo rebelde de Maurício mais tarde conhecido como Jesus Cristo.

Ao afirmar ser uma história verdadeira, a linha do tempo do anarquismo em Secolo Nuovo torna todas as outras histórias verdadeiras suspeitas e é um lembrete de que estamos sempre perdendo partes da história que não servem aos poderes. E os únicos que podem contar histórias verdadeiras são os próprios rebeldes. Então, por que não preencher os espaços em branco?

Como diz o Comitê do Cinema, “é difícil saber em que acreditar, mas preferimos as histórias de pessoas irritantes nos cafés locais e mulheres idosas sentadas em pontos de ônibus nas noites quentes” às dos homens brancos mortos por trás das histórias oficiais.

O autor de Secolo Nuovo, “novo século” em italiano, criou ancestrais fictícios para darmos aos anarquistas uma história de origem, uma tribo de bruxas condutor eletromagnética comovente para se relacionar, o conhecimento que os descendentes das bruxas alpinas e festejos núbios são escondidos ao longo de nossas histórias e que seus segredos estão em algum lugar em nossas linhagens, sussurrados em nossos ouvidos, enquanto repetimos nosso encantamento herdado: ninguém é livre até que todos sejam livres.

Marieke Bivar está em Mtl, Tio’tia: ke, QC, Canadá (seja lá o que for isso). A vida é longa, ela está cultivando a paciência enquanto escreve, traduz e tenta acompanhar o ritmo do luto sob o capitalismo, o colonialismo e a Covid-19.

Fonte: https://thetransmetropolitanreview.wordpress.com/2021/10/30/secolo-nuovo-a-film-and-review/

Tradução > A Estrela

agência de notícias anarquistas-ana

Na poça d’água
o gato lambe
a gota de lua.

Yeda Prates Bernis

[EUA] Coletivo Comida, Roupa & Resistência – Movimento Maroon

O Coletivo Comida, Roupa & Resistência (FCRC – Food, Clothing & Resistance Collective) é um coletivo de ação direta/ajuda mútua criado por mulheres negras anarquistas radicais. Nós centralizamos a resistência negra, parda, indígena, mulherista & Queer apoiando movimentos anticapitalistas, anti-imperialistas, antiautoritários, antipobreza, antiheteropatriarcado, antirracista, anticapacitista, de independência e libertação do povo. Apoiamos os movimentos não-hierárquicos, antiestatais, abolicionistas das prisões, de autodefesa, defesa da terra, defesa comunitária, cooperativas autônomas, comunidades, coletivos de base e comunidades intencionais. Lutamos pelo duplo poder local, regional, nacional e internacional enquanto trabalhamos juntos pelo objetivo final da autodeterminação e libertação de todos os povos e terras oprimidos pela supremacia branca-patriarcal-capitalista-imperialista e neocolonialista.

O Coletivo Comida, Roupa & Resistência foi lançado em 2015 pela organizadora e artista afro-indígena anarquista Sima Lee para conectar outros organizadores e comunidade para ajuda mútua voluntária, programas de sobrevivência, ações diretas, autodefesa, planejamento de resistência, projetos revolucionários de música e arte, aulas e reuniões gratuitas. Temos servido e alimentado centenas de pessoas ao longo dos anos com vários programas, tais como DC Free Store, Feed The People, People’s Pantry, People’s Garden & Water Relief.

Somos também fundadoras da Casa Maroon/Movimento Maroon que foi estabelecido como uma casa intencional e coletiva e movimento criado por mulheres negras queer. Temos participado de protestos, palestras, sediado concertos de música, filmes, conferências, mostras de arte, oficinas e reuniões, mantendo-nos constantemente ativas na luta pela autonomia.

Nossa ajuda mútua durante o ano (programas de sobrevivência) pode sempre utilizar doações de mais: desodorante, escovas de dente, pasta de dente, sabonete, xampu, absorventes, sacos-cama, cobertores, roupas e sapatos. Os alimentos que mais precisamos são: água engarrafada, frutas/legumes frescos, pão, manteiga de amendoim, geleia, lanches saudáveis como barras de granola, sacos de arroz, feijão, massa e produtos enlatados/encaixotados prontos para comer.

Também estamos sempre procurando nos conectar com novos parceiros e voluntários, especialmente agora que estamos trabalhando para ajudar no relançamento da Loja Livre de Baltimore.

Estamos disponíveis para colaborar em projetos e eventos, assim como para palestras, apresentações e mídia.

FCRC – Food, Clothing & Resistance Collective

1005 Rhode Island Ave NE, Washington, DC 20018, EUA

FB: https://www.facebook.com/fcrcollective/

Tradução > solan4s

agência de notícias anarquistas-ana

Pra que respirar?
posso ouvi-la, fremindo,
maciez de noite.

Soares Feitosa

[EUA] Música & Domesticação | A esperança está com os músicos que resistem

Por Ben Olson

Precisamos reafirmar o valor da música, especialmente da música não-domesticada, particularmente durante as privações sociais da pandemia atual. O último ano tem sido um borrão de isolamento social, abrigos in loco e confinamentos.

Os horrores silenciosos de 2020 e além levaram a crescentes prazeres isolados, desejos aterrorizantes, pequenos momentos secretos de esquecimento (ou de querer esquecer), escapes privados que com frequência apenas tornam mais exacerbados os efeitos de estar sozinho e com medo. Nessa situação, para muitas pessoas, a experiência midiática, ver filmes, ler ou ouvir música, torna-se um refúgio cobiçado, uma tentativa vaidosa de relaxamento e descanso da ansiedade constante reconhecida pela metade, como um kit de sobrevivência pelo aumento dos efeitos do trauma cultural coletivamente (ainda que de forma díspar) distribuído e individualmente sofrido. Mas o isolamento da música, o entrelaçamento da experiência musical com nossa crescente domesticação, significa que as nossas tentativas de cura podem ser insuficientes.

O que precisamos é deixar entrar o ar, não lacrar a dor em momentos hermeticamente saudosistas. É importante, então, afirmar o valor da música não-domesticada — selvagem em sua composição e/ou em seu formato de disponibilização — com o propósito de nos abrir em um tempo no qual corremos o risco de nos fechar completamente.

Música de vanguarda ou de improviso, assim como a dos guitarristas ingleses de vanguarda do rock Fred Frith e Derek Bailey, ou como a do coletivo de arte experimental surrealista The Residents, esticam os limites do que conta como música ao explorar o potencial de atonalidade e barulho.

As pessoas experienciam a música de formas profundamente pessoais, traçadas por seus passados e presentes individuais, além e acima do que pode ser expressado pela linguagem. Não precisa ser discursivo nem precisa necessariamente incluir qualquer tipo de regularidade além dos ritmos inevitavelmente imperfeitos de um corpo vivo, como batidas do coração. Melodias não-domesticadas têm o potencial de resistir a modos dominantes de comunicação, ao criar um mundo temporário e imaginário que permite que se expresse contra o dominante, contra as forças de controle que buscam definir os limites do que é possível.

Em nossa sociedade, essas forças são incorporadas e enraizadas em ideologias coloniais em sua maioria implementadas imediatamente pela polícia. Normalizam a captura, o aprisionamento e até o assassinato de povos subjugados.

A música é uma ferramenta efetiva para demonstrar solidariedade com aqueles que buscam resistir esse controle. Quando cidades estavam sob o isolamento contra a pandemia do COVID-19, bem como os toques de recolher feitos para encurtar os protestos contra a brutalidade policial, muitos músicos resistiram às restrições colocadas neles ao se juntarem aos manifestantes antirracistas para demonstrar seu apoio e emprestar sua música como forma de expressão. Na internet, dentro das telas vigiadas das redes sociais, músicos furiosos postaram vídeos de novas músicas e performances selvagens que buscaram transformar seus mundos dados os horrores que testemunhavam. Como um uivo irracional contra restrições, a melodia não-domesticada exige o impossível, uma vida sem um mestre, com nenhuma autoridade além de si mesmo.

Domesticação é a instilação da submissão em indivíduos ou grupos por meios físicos/biológicos (como uma criação de plantas ou animais e outras práticas agropecuárias), ou por outras práticas culturais ideológicas ou amplas, como a religião e outras práticas que constituem a verdade em uma sociedade. A construção de normas culturais e o bloqueio do que não se submete a elas podem ser aplicados a tipos diferentes de atividades culturais, mas a domesticação ocorre primeiro a nível de experiência.

O domesticador obriga subordinados em potencial a uma auto-experiência como seres dóceis, já submissos. Comportamentos indisciplinados — ações que vão contra esse treinamento — são ditas como contra sua própria natureza. Ser domesticado é ter uma experiência quebrada em instinto e obediência. O objetivo da domesticação é convencer o treinado que a docilidade vem do instinto.

Entre as críticas à civilização, a domesticação é geralmente compreendida como um termo ecológico relacionado à agricultura. Implícita nessa compreensão, contudo, está uma concepção mais ampla da domesticação como resignação à cultura dominante, disciplinando a mente humana.

Essa abordagem é útil à compreensão das limitações do trabalho do músico, mas não exclui ou contradiz uma crítica mais pontual e primitivista que pode ser feita simplesmente ao ligar a digitalização da música à tecnologização da vida cotidiana, ou, em um nível mais antropológico, ao observar as ligações históricas entre harmonia e hierarquia. Complementar a essa crítica há uma descrição existencial da experiência da domesticação na música.

A música e o trabalho do músico passaram por novos estágios de domesticação pela forma que se retira a experiência musical da realidade compartilhada para dois reinos imateriais: a internet e o exclusivamente mental. Isso constitui uma dominação da experiência e do trabalho da performance melódica. Também quanto ao conteúdo, músicas têm se tornado mais dependentes de um alinhamento temporal de grade a ser copiado e colado e facilmente manipulado em um software de computador.

Isso afeta não apenas o trabalho de músicos, mas as camadas rítmicas mais profundas do ser humano. Enquanto essa técnica facilita a criação musical, faz com que ela seja também mais previsível, tornando brusco o efeito da antecipação e bloqueando a ansiedade da experiência do ouvinte, ao invés de permitir que essa ansiedade se desenvolva e se resolva em si mesma.

A música não é apenas uma atividade cultural, mas uma expressão dos seus próprios ritmos. Quando nos restringimos ou nos permitimos ser restringidos pela submissão a modos de expressão dominantes em troca de participação na cultura, perdemos acesso a esses ritmos mais básicos do ser que não precisam ter uma relação específica com a cultura cuja participação requer tais trocas.

Ao substituir as irregularidades livres de performances improvisadas que não seguem assinaturas temporais internas estáveis, com técnicas que conformam mais facilmente a um ritmo sincronizado, abrimos mão de um elemento essencial do processo musical por algo mais compatível com pressupostos culturais sobre uma concepção mais ampla de música. Isso limita os ritmos idiossincráticos do ser que são integrais à experiência mais livre de temporalidade não-domesticada. A pulsação, síncopes metronômicas são trazidas de dentro de nós entre as orelhas, em um esforço desesperado para substituir a lucidez perdida de nossos ritmos corporais mais instintivos.

Essa experiência de fones de ouvido – ainda que com frequência empolgante, visceral e cerebral na mesma nota – é uma substituição poderosa para a experiência vivida e espacial do corpo em um mundo compartilhado, mas ainda assim uma substituição. Traz os ritmos para dentro ao invés de provocar o ouvinte a habitar um mundo rítmico. Transforma o corpo em um mundo em si mesmo, o que é especialmente perigoso em um tempo no qual feridas emocionais estão sendo incubadas, crescendo e se alimentando de privações sociais, incitando o que pode se tornar profundas inibições interpessoais que podem atormentar as gerações futuras. Devemos assegurar que nós e nossos descendentes não sejamos deixados incapazes de verdadeiramente habitar este mundo, incapazes de encarar a realidade em sua imprevisibilidade, a não apenas tolerar, mas a habitar e a participar da confusão selvagem da realidade.

Por várias razões, a música não deve ser tocada para que todos a ouçam, mas injetada em ambos os lados do crânio do ouvinte, como se fosse sua própria experiência individual. Isso pode fazer o ato de ouvir música ser mais animado de algumas formas. Coisas como o posicionamento do som, seus gradientes e vários efeitos sonoros trabalham para tornar a experiência de músicas gravadas mais interessante, assim como a produção joga com as posicionalidades no corpo, mas a retirada do ouvinte de um espaço aberto no qual o artista divide acesso espacial perceptivo com a música, ou em que pessoas a ouvem juntas, é uma repressão da dinâmica e da vida independente da música em si, em toda sua finitude rítmica. É um fechamento de fronteiras em torno de um instinto musical cuja privação é do corpo humano em seu espaço aberto e acesso a outros corpos.

O outro reino imaterial no qual pode-se ter uma experiência com a música é a internet, que pode, discutivelmente, ser um local de compartilhamento do inconsciente. Na internet, consciências geralmente entram em confronto, como se habitassem o mesmo espaço mental aberto. A música pode até mesmo ser feita em conjunto nesse reino digital, entre indivíduos que estariam geograficamente em locais separados de outra maneira, mas a materialidade bruta de se estar do lado de fora, de se estar ali, a habitação de um mundo inteiramente perceptual e espacial não acontecem online.

A percepção é sinestética. A audição, como os outros sentidos, não é dissociável de seu contexto perceptual mais amplo. A experiência do mundo não é redutível a sentidos dissociados e divisíveis, mas depende de um contexto aberto no qual os sentidos se misturam. O mundo multissensorial é o contexto da música e, sem ele, a música vive uma vida rígida.

A esperança está naqueles músicos que estão tentando escapar do distanciamento, resistir à coletividade ilusória da internet e quebrar a regularidade monótona dos ritmos das máquinas ao adotar a imprevisibilidade e a irregularidade do ritmo, experimentando a lucidez do ser ao tocar fora de assinaturas temporais ou a rejeitá-las completamente e recuperando as melodias rebeldes, acolhendo a vida da música que existe lá fora.

>> Ben Olson é escritor e músico com base em Nova Iorque. Estuda Filosofia na The New School for Social Research.

Fonte: Fifth Estate # 409, Summer, 2021

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

no vaso menor
um punhado de terra
violeta em flor

Ricardo Silvestrin

[Espanha] Os traços mais familiares de Ramón Acín em fotografias conservadas por suas filhas após seu fuzilamento em 1936

• A exposição ‘El Cajón de las Fotos’ reúne fotografias da família, de Ramón e de sua esposa Conchita Monrás, que as filhas conservaram depois que seus pais foram fuzilados em 1936.

• A cultura e a arte mais uma vez reivindicam a família Acín Monrás

A marca infinita de Ramón Acín em sua Huesca natal, onde foi professor e artista até sua execução por fuzilamento no início da Guerra Civil, continua a se expandir em nossos dias. Agora, através do aspecto mais íntimo e familiar através da exposição ‘El Cajón de las Fotos’, que reúne fotografias da família, de Ramón e de sua esposa Conchita Monrás que as filhas, Katia e Sol Acín, conservaram após o fuzilamento de seus pais em 1936. A exposição, organizada pela Prefeitura Municipal de Huesca com a colaboração da Fundação Ramón e Katia Acín e da Fundação Ibercaja, estará aberta até 21 de janeiro no Centro Ibercaja Huesca-Palacio Villahermosa.

A exposição não é uma coleção de material profissional de fototeca, mas uma coleção privada, que foi gerada e coletada principalmente por aqueles que lhe são mais próximos. As fotos vêm de caixas, bolsas, de amigos da família. A maioria delas são anônimas, mas também há imagens de fotógrafos locais, como Ricardo Compairé. Com esta exposição, modesta em sua montagem, mas intensa em suas experiências, são oferecidos aos visitantes fragmentos do calor da vida, curta, mas vivida com liberdade.

Como a Fundação Ramón e Kátia Acín assinala, resumir a figura de Ramón Acín “é um assunto difícil”. Sua vida forja a trajetória de um humanista nascido no final do século XIX, com uma extensa cultura e uma forma particular de ver a arte. O humanista e polígrafo Acín dedicou sua vida à renovação pedagógica e construiu uma vida e uma prática coerentes em todos os âmbitos. O pessoal, o pedagógico e o artístico estavam entremeados em suas ações, suas obras, seus escritos jornalísticos e seu intenso trabalho anarcossindicalista.

“Dirigente da CNT oscense, com uma projeção que o levou ao exílio após a frustrada Sublevação de Jaca, ele não era um político comum. Seu extenso trabalho pedagógico não se limitou às escolas. Ele acreditava que a sociedade seria mais livre com mais cultura e uns meios de sobrevivência que humanizaria a vida da classe trabalhadora. Os intolerantes sabiam que na pedagogia, na liberdade de pensamento e de ação, encontrava-se seu inimigo. Por isso que ele foi uma das primeiras pessoas a ser assassinada em Huesca após a sublevação fascista de 1936”, explica a Fundação.

A maioria da coleção é “de autoria anônima”, acrescentam estas fontes. “Talvez eles pudessem pertencer a Ramón, outros a Conchita, de amigos. Não sabemos. Alguns são de fotógrafos qualificados, como nosso amigo Ricardo Compairé. Estas mesmas fotos nas mãos do Compairé foram bem preservadas e estão agora na indispensável Fototeca de la Diputación de Huesca. Mas não queríamos ir até eles, mas até as cópias da família Acín”.

“Embora tenhamos restaurado alguns problemas muito sérios em alguns casos e minimamente corrigido quase tudo, temos mantido a unidade de um critério inegociável. Estas são as fotos que a família tinha em sua casa, que oferecemos aos visitantes que querem sentir fragmentos do calor da vida, curta, mas vivida com a seiva da liberdade”, acrescentam.

A exposição foi inaugurada em 22 de dezembro, uma data simbólica na vida de Ramón Acín. Nesse mesmo dia, em 1932, ele foi um dos oscenses que ganhou a Bolada da loteria, o que tornou possível o filme de Buñuel sobre as Hurdes que Acín financiou. Sua influência transcende o tempo e está muito presente na cidade. A imagem mais representativa e duradoura, a escultura Fuente de Las Pajaritas, instalada no Parque Miguel Servet em Huesca desde 1928. Desde os anos 90, o ateneu libertário da capital de Huesca tem levado seu nome. Em 2005, a CNT de Huesca prestou-lhe homenagem com uma placa comemorativa em sua casa na rua 3 Las Cortes, conhecida como Casa Ena. O Museu Pedagógico de Aragão dedica uma parte de sua exposição permanente a Ramón Acín e seus projetos pedagógicos. E ele aparece como personagem na história em quadrinhos “Buñuel en el laberinto de las tortugas”, de Fermín Solís, e em sua adaptação cinematográfica com o mesmo nome.

A família Acín Monrás foi reivindicada desde a memória. Também desde a arte e a cultura que contribuíram para propagar durante as primeiras décadas do século 20 em Huesca, antes do assassinato de Ramón Acín e Conchita Monrás nos primeiros dias da Guerra Civil. No espaço de pouco mais de duas semanas, eles ficaram órfãos de Katia, nascida em 1923, e de Sol, que veio ao mundo dois anos depois. Ambas, ligadas ao legado familiar, se expressaram de forma vital e artística com o humanismo e a sensibilidade herdados de seus pais. Sol faleceu em 1998 e Katia em 2004 depois de deixar sua marca na poesia e na arte, respectivamente.

A Fundação Ramón e Katia Acín nasceu como uma ideia em 2005, logo após a morte de Katia. Foi uma ideia das filhas e filhos de Katia que gradualmente tomou forma e finalmente se cristalizou no verão de 2007, quando foi formalmente constituída. Por trás da iniciativa de criar a Fundação está a vontade dos descendentes de Ramón e Katia de manter vivo o espírito e a memória dessas figuras excepcionais. A Fundação também assume a responsabilidade pela promoção, gestão e autenticação do importante trabalho gráfico de Katia.

Fonte: https://www.eldiario.es/aragon/huella-familiar-ramon-acin-fotografias-conservadas-hijas-fusilamiento-1936_1_8613851.html

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/09/11/espanha-lancamento-vida-e-morte-de-ramon-acin-arte-acessivel-ate-uma-federacao-de-autonomias-ibericas-de-felipe-alaiz/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/10/15/espanha-um-curta-narra-os-ultimos-dias-de-concha-monras-e-ramon-acin/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/09/26/espanha-ramon-acin-80-anos-do-assassinato-do-homem-bom-que-gastou-seu-el-gordo-para-financiar-tierra-sin-pan-de-bunel/

agência de notícias anarquistas-ana

ipê amarelo
até a calçada
floresce

Ricardo Silvestrin

[Bielorrússia] Apoio aos Anarco-Partisans que foram sentenciados a penas enormes

Hoje, ativistas anarquistas foram sentenciados com penas enormes por não ficarem de fora da revolução bielorrussa e começarem a agir em sua contribuição. As sentenças totalizaram 77 anos para os quatro.

Igor Olinevich, Sergei Romanov, Dmitry Dubovsky e Dmitry Rezanovich são anarquistas que foram presos em 28 de outubro de 2020 no território perto da fronteira ucraniana. Foram acusados sob os Artigos 289.2 (terrorismo) e 295.3 (tráfico ilegal de armas), de uma série de ataques em uma instituição estatal em Soligorsk e Mozyr que foram consideradas ataques terroristas pelas forças de segurança. Também, Sergei Romanov já foi sentenciado a 1 ano na prisão por violação de supervisão.

Os ativistas do movimento anarquista, que sempre foram um alvo do regime autoritário, receberam as maiores sentenças desde o começo da crise política no país. Hoje a Bielorrússia é uma ditadura — o “tribunal” foi fechado e é impossível chamá-lo de justo e imparcial.

Os ativistas precisam do seu apoio.

Quanto é necessário?

5000 € — suprimentos materiais e médicos, apoio na primeira vez após a transferência para a colônia.

>> Para apoiar, clique aqui:

https://bysol.org/en/private/anarchopartisans/

Tradução > Sky

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/24/bielorrussia-18-a-20-anos-de-prisao-para-anarco-partisans-bielorrussos/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/28/bielorrussia-quatro-anarquistas-bielorrussos-recebem-penas-prolongadas-em-meio-a-repressao-da-dissidencia/

agência de notícias anarquistas-ana

Os banhos agora
Num dia sim, noutro não –
Canto dos insetos.

Konishi Raizan

[EUA] Vídeo | O que é o apoio mútuo?

O apoio mútuo tem estado sob os holofotes recentemente dada a crise atual, mas o que significa exatamente? E o que faz dele uma forma poderosa e única da práxis anarquista quando em confronto com a caridade e o voluntariado? Bem, ‘apoio mútuo’ é essencialmente a noção muito radical de que a cooperação ao invés da competição é o que leva comunidades adiante. É a expressão mais prática da solidariedade, almejando que todos e todas tenham suas necessidades atendidas, incentivando, embora nunca esperando, a reciprocidade. É algo descentralizado e a nível de base, dependente das habilidades, recursos e esforços coletivos da comunidade ao invés da intervenção do Estado ou de sua contemplação de demandas.

No reino animal, é uma segunda natureza – as observações evolutivas de Kropotkin em “Mutual Aid” mostram como redes de apoio mútuo, ao invés da luta compartilhada, têm o maior papel na prosperidade da espécie. Mas, como muitas formas de convergência que representa uma ameaça ao capitalismo em todo seu individualismo neoliberal, nosso instinto por apoio mútuo foi corrigido e reprimido. Organizar-se dessa forma é, portanto, uma demonstração de solidariedade que ameaça esmagar a falácia destrutiva do “cada um por si e o Estado por todos”. Cria uma forma de abundância coletiva que o crescimento econômico infindável nunca terá sucesso em criar, e isso é algo que o Estado nunca compreenderá.

Reivindicá-lo é retomar a nossa humanidade, a nossa animalidade, da máquina capitalista. Praticá-lo é um ato de resistência e uma incorporação de um sistema alternativo que podemos executar aqui e agora; o anarquismo não senta e espera pelo colapso do capitalismo, está bem vivo no presente. Agora mais do que nunca, não é algo que você reza para acontecer… É algo que você faz acontecer.

>> Veja o vídeo (05:27) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=i27pQVeaInA

Fonte: https://unoffensiveanimal.is/2021/12/14/what-is-mutual-aid-2/

Tradução > Sky

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/13/anarquia-no-reino-unido-o-poder-transformador-do-apoio-mutuo/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/09/16/pre-venda-apoio-mutuo-de-piotr-kropotkin/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/18/eua-plano-de-5-livros-apoio-mutuo/

agência de notícias anarquistas-ana

de tantos instantes
para mim lembrança
as flores de cerejeira.

Matsuo Bashô

[França] Um convite da livraria anarquista La Gryffe

Se como nós, você gosta do debate de ideias e dos livros…

Livros de revolta que nos falam ao presente, de fragmentos de narrativas do passado que carregam tantas linhas de força que nos atravessam…

Livros que nos ajudam a pensar, a ver diferente, a encontrar um imaginário comum para nos reunir e nos tornar invencíveis…

Nós te convidamos a juntar-se ao coletivo da livraria La Gryffe.

Desde 1978, o coletivo Gryffe tem participado da luta libertária contra todas as formas de poder e, portanto, rejeita a hierarquia, bem como as relações induzidas por relações e normas de dominação.

Estamos obstinadamente tentando uma operação autogerida desta biblioteca.

A livraria distribui livros, brochuras, revistas, jornais, etc. que oferecem análises de sistemas opressores, críticas anticapitalistas e antiautoritárias ou que relatam lutas sociais, queer e feministas.

É também um local que acolhe encontros, debates, filmes, conferências, bem como encontros de coletivos locais e grupos de ação.

Hoje, o coletivo quer se expandir.

Se você se reconhece na abordagem de La Gryffe;

Se deseja participar do funcionamento da livraria (cumprir horário de expediente, oferecer livros, reuniões com autores ou palestrantes, participar de reuniões para escolha e encomenda de livros, contabilidade, organização de debates …):

Venha nos encontrar uma tarde (entre 14h e 19h) na livraria (5 rue Sébastien Gryphe, à la Guillotière, Lyon 7e)

lagryffe.net

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/05/29/franca-lancamento-la-gryffe-a-longa-historia-de-uma-livraria-libertaria-de-daniel-colson/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/10/20/franca-livraria-libertaria-la-gryffe-fara-40-anos-em-2018/

agência de notícias anarquistas-ana

cada galho pro seu lado
mas na cor das flores
nenhum discorda

Alonso Alvarez

[Canadá] Um Mistério de Sacco e Vanzetti com uma reviravolta moderna

Por S. Laplage

Uma revisão de “Suosso’s Lane” de Robert Knox (Web-e-Pub 2016). web-e-books.com/suosso/paperback.html

Durante o medo vermelho após a Primeira Guerra Mundial, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram os candidatos perfeitos para o assassinato judicial. Italianos, imigrantes e anarquistas.

Eles foram condenados em 1921 por assassinarem um pagador e um guarda durante um assalto à mão armada na Slater and Morrill Shoe Company em Braintree, Massachusetts. Embora a inocência se tornasse cada vez mais evidente, eles foram executados na cadeira elétrica em 1927. Manifestações em massa protestando contra o julgamento e o veredicto aconteceram em toda a América do Norte e no mundo.

Minha cabeça estava girando depois de terminar este romance poderosamente escrito. A qualidade da prosa é impressionante. O autor Robert Knox, romancista e poeta, que cobre as artes para The Boston Globe, parece um candidato improvável para escrever um romance tão simpático a seus personagens anarquistas, mas ele os traz à vida de uma forma maravilhosa.

A história vai e vem facilmente entre os primeiros anos do século 20, o julgamento e morte de Sacco e Vanzetti, um policial morto nos anos 40, e o presente, seguindo diferentes pessoas ligadas às vítimas do Estado e das campanhas anti-imigrantes e anti-anarquistas.

Isto é literatura, não um curso de história. Vividamente encontramos as horríveis condições de trabalho e de vida que as pessoas suportaram, as atividades de anarquistas, alguns conhecidos, que agem em reação à sua opressão e prisão e deportação de seus camaradas, as batidas dos Palmer e o medo vermelho.

Os personagens são bem desenvolvidos. Alguns muito humanos, com dúvidas e falhas, incluindo homens e mulheres de diferentes classes sociais que defendem Sacco e Vanzetti, e os descendentes dos dois anarquistas que aparecem como parte de um mistério em desenvolvimento.

Outros são desumanos. Desde os capatazes que tratam os trabalhadores como bestas de carga, a polícia que ataca os grevistas, até o juiz, advogado de acusação e governador de Massachusetts que condenam os anarquistas inocentes à morte.

Mas a história não permanece no passado. Levando ao quase presente, o autor tece a questão da ganância (uma fundação do capitalismo), um assassinato não resolvido nos anos 40 (quem matou o policial e por quê?), e uma carta muito procurada relacionada com o julgamento de Sacco e Vanzetti.

Um repórter de um jornal regional, um professor de história, um assistente social, o proprietário de uma loja de revenda em busca de fama e um proprietário de restaurante ganancioso disposto a fazer qualquer coisa, estão fluidamente integrados à história. Todos eles querem a carta. Até que ponto eles irão para encontrá-la?

Não deixe que as 570 páginas do romance o assustem. Ao final, você pode estar desejando que fosse mais longo.

>> S. Laplage é um membro do coletivo editorial do Fifth Estate. Eles vivem em Montreal.

Fonte: Fifth Estate  # 409, Verão, 2021

Tradução > solan4s

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/19/espanha-faz-100-anos-a-injusta-condenacao-de-sacco-e-vanzetti/

agência de notícias anarquistas-ana

um ponto vem do horizonte,
vira pássaro, desce e pousa;
a árvore o repousa.

Alaor Chaves

[Espanha] Léo Ferré, música, poesia e anarquia

Léo Ferré foi um dos grandes nomes da música francesa. Considerado o cantor mais prolífico da língua francófona, a obra de Ferré, a par das suas várias facetas, é incomparável, nem sequer comparada com a de outros dois grandes músicos de canções como Georges Brassens ou Jacques Brel.

Léo Ferré compôs mais de 40 álbuns originais em um período de quase meio século. Também escreveu o romance autobiográfico “Benôit Misère”. Sua bibliografia inclui ensaios, críticas e monólogos. Talvez a origem de sua faceta rebelde remonte à sua estada no colégio cristão de Saint-Charles, na cidade italiana de Bordighera; a miséria e o egoísmo que o cercavam naquele lugar certamente o levaram a desenvolver o pensamento crítico e questionar a autoridade. Embora tenha estudado Direito, Filosofia e Ciências Políticas, na Paris dos anos 30, o que realmente o fascinou, felizmente para a História, foi a música e a poesia. Um dos grandes nomes da música que o ajudou no início foi Edith Piaf, algo pelo qual Ferré sempre foi grato. Outros grandes intérpretes acabariam cantando depois suas grandes canções: Henri Salvador, Juliette Greco, Yves Montand…

Suas ideias anarquistas o levaram a criar canções como “Ni Dieu ni mâitre” ou a censurada “Mon general”. A Espanha foi uma das grandes inspirações para o seu trabalho, como evidenciado por suas canções “Le bateau espagnol”, “Franco la muerte” (escrita após o assassinato do líder comunista Julián Grimau) ou “L’espoir”. Em suas próprias palavras: Sou fascinado sem conhecê-la, mas não pela Espanha, mas pelos espanhóis. Os franceses e italianos têm ideias por trás das cabeças. Os espanhóis são o contrário. Em “Les anarchistes”, um tema de 1968, ele leu: “Eles não chegam a um por cento e ainda a maioria deles, espanhóis, sabe-se lá porquê.” Como ácrata e poeta, ele amava as palavras e detestava autoridade. Sempre ajudou, pessoal e financeiramente, o movimento anarquista.

Ao contrário de Brassens, outro dos grandes nomes da música francesa também anarquista, com uma certa temperança na exposição ideológica, Ferré ficava bastante zangado e cheio de fúria ao expor as suas críticas e ideias. Os seus recitais podem ser considerados verdadeiros comícios libertários: “Falo, lati como um cão. Eu sou um cachorro”, disse ele na canção “Le chien”. Um exemplo da sua cólera musical e literária é a já citada canção censurada “Mon general”, dedicada a De Gaulle, a quem reconheceu pelo seu papel na resistência francesa, mas nada mais. Outros alvos de suas críticas seriam o Papa Pio XII e, claro, o ditador Franco.

Em 1968, desempenhou um papel significativo no Maio francês, embora mais tarde respondesse sempre quando questionado sobre o assunto, a infeliz evolução burguesa que tiveram muitos dos seus protagonistas. Paradoxalmente, Ferré seria acusado por ocasião de ser pequeno-burguês por uma certa esquerda, recurso muito comum em uma crítica ao anarquismo que remonta a antigos confrontos. Curiosamente, Ferré morreria no dia 14 de julho, dia do feriado nacional na França, embora já houvesse se refugiado na Toscana italiana. Entre as grandes satisfações que reconheceu foi ter levado aos ouvidos do povo, através da música, poetas como Apollinaire, Rimbaud, Baudelaire ou Verlaine. Outro, certamente o maior, por ter apoiado a causa ácrata.

Capi Vidal

Fonte: http://acracia.org/leo-ferre-musica-poesia-y-anarquia/

Tradução > GTR@Leibowitz__

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/07/16/franca-1993-2013-20-anos-sem-leo-ferre/

agência de notícias anarquistas-ana

velho no banco
corrida de meninos –
passam os anos

Carlos Seabra

Novo vídeo: Fim de Ano / Fim do Mundo

Pode ser de fato que o mundo esteja acabando. Ou mesmo que o mundo que conhecíamos já tenha acabado e estejamos vivendo em suas ruínas. Mas isso não significa que novos mundos não irão brotar. Cabe a nós construí-los e defendê-los.

Nos vemos em 2022!

>> Veja o vídeo (03:24) aqui:

https://antimidia.org/fim-de-ano-fim-do-mundo/

agência de notícias anarquistas-ana

Oh rã pequenina,
oh não se deixe vencer!
Issa está aqui.

Issa

 

[EUA] Entendendo o Estado Moderno: uma Entrevista com Eric Laursen

Está se tornando cada vez mais comum novas histórias sobre níveis recordes de insatisfação e desconfiança de governos e instituições. Uma das mais recentes veio de uma pesquisa da Harvard Kennedy School com jovens estadunidenses entre 18 e 29 anos, na qual mais da metade dos respondentes acreditavam viver em uma democracia falha. Enquanto muitas pessoas podem se referir a instituições específicas quando expressam insatisfação sobre o estado do mundo, como governos, corporações, forças militares e polícia, cada uma dessas instituições são apenas uma parte de um sistema maior que almeja o controle de todos os aspectos de nossas vidas — o Estado.

O livro recente de Eric Laursen, The Operating System: An Anarchist Theory of the Modern State, produzido pela Agency e publicado pela AK Press, provém uma visão geral acessível e fascinante do desenvolvimento do Estado moderno, desenhando uma equivalência provocativa entre o Estado e um sistema operacional de um computador, ambos buscando o controle de nossa existência. A Agency recentemente produziu também um curta animado que captura alguns dos elementos centrais do livro de Eric. Conversamos com Eric para entender como o Estado moderno funciona e por que precisamos nos mover para além dele.

Agency: Seu livro recém-publicado se chama The Operating System: An Anarchist Theory of the Modern State. Por que o Estado? O que lhe inspirou a enfrentar um assunto tão monumental neste momento?

Eric Laursen: Principalmente o fato de que não foi feito antes. Eu me identifiquei como anarquista por basicamente minha inteira vida adulta e, antes, estava impressionado pelo fato de que os assim chamados “clássicos” anarquistas – Kropotkin, Bakunin, Goldman etc. – nunca analisaram de forma extensiva o que é o Estado. Tinha minhas próprias ideias e me vi concordando com seu argumento básico de que derrubar o capitalismo é impossível sem, ao mesmo tempo, derrubar o Estado, mas eu precisava compreender melhor qual era a relação entre os dois e muito pouco no corpo de escritos e teorias anarquistas — ou também em teoria marxista — explicou isso para mim de modo satisfatório. Então estive pensando sobre isso por bastante tempo. Meu novo livro é na verdade o resultado de anos matutando sobre isso, e então se aprofundando bastante sobre o assunto há cerca de dois anos.

A outra razão pela qual decidi escrever este livro é que senti que estávamos alcançando um ponto crítico na relação da humanidade com esses sistemas: o capitalismo e o Estado. Foi decisão deles, nos últimos 200 anos, construir uma economia massivamente dependente do uso de combustíveis fósseis. Foi decisão deles impor o modelo de economia neoliberal no mundo em desenvolvimento, enfraquecendo as economias locais e ordens sociais e levando a vastos deslocamentos populacionais pelo mundo. Foi decisão deles aplicar o neoliberalismo também no mundo desenvolvido, o que levou ao crescimento da desigualdade econômica, o esvaziamento das comunidades e um setor financeiro massivamente inchado que essencialmente tornou a economia um cassino.

É urgente que entendamos melhor a dinâmica que criou essas crises, que são globais e existenciais, e isso é sinônimo de entender a relação entre o Estado e o capitalismo.

Agency: Por que um sistema operacional de computador é uma boa analogia para o Estado?

Eric: Porque um sistema como Windows ou iOS, assim como o Estado, ambiciona a supremacia: ser aquele que tudo vê, que tudo sabe, sempre presente em nossas vidas para construir uma monocultura global, o que então se vende como uma utopia. Isso não é uma coincidência, uma vez que sistemas operacionais de computadores são um produto do Estado, desenvolvido através de uma colaboração intensa entre o público e o privado nas décadas que seguiram a Segunda Guerra Mundial. Como o Estado, são um dos desenvolvimentos que definem o mundo moderno que começou há um pouco mais de 500 anos e incorporam muitas das ambições do Estado em si.

Deixe-me explicar o que quero dizer com isso. Já houveram todos os tipos de Estados na história humana, voltando às dinastias egípcias, ao Império Romano, ao Império Chinês, e assim por diante. Mas o Estado moderno é algo muito particular que ascendeu na Europa pelo final do século XV. O que o torna diferente é que, nesses novos Estados — inicialmente França, Inglaterra e Espanha —, os monarcas tentaram criar um regime unitário que utiliza comércio e finança como uma ferramenta para obter e ampliar seu poder. Não era mais apenas sobre exércitos e tributos e taxações, era sobre as mercadorias que você produzia, o tamanho do mercado para elas e a influência que concediam a você para derrotar seus inimigos e expandir seu poder, interna tanto quanto externamente. É por isso que eu digo que o Estado foi o capitalista original e ainda é o maior deles.

Mas, para usar essa nova arma efetivamente, os governantes precisavam exercer um controle muito maior nas vidas de suas populações. Todos os aspectos delas. Isso significava, como o Estado moderno desenvolveu, um maior controle sobre onde vivem, quantas crianças têm, qual religião seguem, quais ocupações exercem, o que pensam e no que acreditam. Com o passar dos séculos, isso significou mais rastreamento, mais vigilância, mais regulação, mais engenharia social, mais eficiência, e significou absorver mais de suas tradições na infraestrutura do Estado, ou então destruir essas tradições, caso elas estivessem em seu caminho. E isso significou imperialismo e colonização, enquanto o Estado tentou absorver mais partes do mundo em seu modelo econômico e político. O Estado em si é uma exportação colonial — talvez a requisição de materiais que teve mais sucesso de vendas na história mundial.

Sistemas operacionais de computador têm a mesma ambição: prover uma estrutura para cada parte de nossas vidas digitais. Nós nos tornamos “cidadãos” do Windows, “cidadãos” do Mac iOS. Esses se tornam a cultura profunda dentro da qual vivemos mais e mais de nossas vidas — e Mark Zuckerberg e sua gangue têm seu jeito com o “metaverso” em sua completude.

Como esses sistemas, o Estado quer que nos sintamos completamente em casa, aceitando uma forma de existência insustentável — construída na extração e consumo de combustíveis fósseis — que explora milhões de pessoas em regiões pobres e em desenvolvimento e põe em perigo a nossa própria existência, de forma que não conseguimos concebê-la fora desse sistema.

Agency: Em The Operating System você discute a questão de Grupos Identitários de Base estarem no centro do poder de todo Estado. Você pode dar alguns exemplos desses Grupos e de como eles concentram seu poder no Estado?

Eric: Bem, sempre houve algo de artificial sobre esses Grupos Identitários de Base. Vou dar um exemplo: o que é conhecido nos Estados Unidos como “pessoas brancas” é, na verdade, um grupo bem díspar, por classe, por origem étnica, por riqueza.  Mas somos ensinados a pensar em pessoas brancas como uma casta privilegiada, os estadunidenses “reais”, os mais merecedores do privilégio de se considerarem estadunidenses — como a “nação” que o Estado supostamente incorpora —, mesmo que a branquitude seja um conceito inventado, que pode ser esticado para incluir novos grupos quando necessário.

Todo Estado tem sua versão de um Grupo Identitário de Base, voltando às origens do Estado moderno. O que realmente significa é um grupo em que o Estado depende como sua base de suporte, que encoraja a se identificar mais intimamente com o próprio Estado e é a reserva da qual ele obtém cada nova iteração de sua liderança. O problema com a noção de um Grupo Identitário de Base é que ela inevitavelmente exclui alguém – na verdade, um monte de pessoas. Todo o resto forma uma subclasse que está eternamente batendo na porta do privilégio, mas nunca entra; o resultado é que o preço do Estado é o racismo, o sexismo e a discriminação da identidade de gênero, porque mulheres e não-binários são apenas provisionalmente parte do Grupo Identitário de Base. O capital, é claro, precisa de uma subclasse que o auxilie a manter um baixo custo de mão de obra, então essa disposição também serve aos interesses dos negócios e financeiros. O que quero estressar é que esses não são problemas que o Estado pode nos ajudar a resolver, são endêmicos a ele, parte de sua lógica interna.

Agency: The Operating System discute como o Estado frequentemente falha em contemplar até mesmo as necessidades mais básicas das comunidades. Há áreas específicas que você pensa que o Estado falha particularmente em relação a essas necessidades?

Eric: Acabei de mencionar uma delas — o racismo — e isso inclui a perseguição e eliminação dos grupos indígenas remanescentes no mundo e de suas culturas. Mas há tantas outras. Uma outra, é claro, é a pobreza. O Estado não é apto a eliminar a pobreza, apesar de todos os seus recursos —que em teoria seriam suficientes para fazê-lo — e apesar das ideologias otimistas que liberais e conservadores tacitamente aceitam. O Estado sempre foi orientado a buscar o crescimento econômico tão rápido quanto possível, já que essa é a base do poder no mundo moderno e, porque depende do capital para isso, é inevitavelmente sujeito a ciclos de retração e expansão e deixam seres humanos às margens, requerendo a segurança de perpetradores “grandes demais para cair”. E isso desconsidera o quanto o sistema prejudica o meio ambiente. O que, é claro, é um outro problema é que pagamos um preço espantoso pelo crescimento e manutenção do sistema baseado no Estado e, à medida que as mudanças climáticas se aceleram, esse preço se torna devastador. Então, quero enfatizar uma outra coisa: que o Estado não é capaz — não tem incentivo — para resolver o problema do aquecimento global, ou mesmo revertê-lo. Apenas não tem o incentivo para fazê-lo, porque isso tiraria a atenção de sua busca por rápido crescimento econômico.

Agency: Parece que a maioria das pessoas naturalizam a existência do Estado, como se fosse algo dado e não houvessem alternativas que não sejam aterrorizantemente brutais. Você tem alguma opinião sobre como agentes do Estado conseguiram criar tanto medo de sociedades sem Estado?

Eric: Sim! O Estado impõe sua visão da sociedade por meio de uma combinação de poderes mais agressivos e mais suaves, e ao cultivar a lealdade do Grupo Identitário de Base. Vimos isso recentemente, é claro, na maneira que Trump apelou à autopercepção de estadunidenses brancos como os “estadunidenses reais,” as “pessoas normais,” e como a campanha do Brexit no Reino Unido encorajou pessoas brancas na Grã-Bretanha, as de ascendentes anglo-saxões, a adotar uma percepção muito exclusiva do que significa ser “inglês.”

Mas há um problema. A fé no governo está em uma baixa histórica na maioria das assim chamadas economias avançadas. Então o Estado encoraja o Grupo Identitário de Base a se identificar intimamente com duas instituições em particular: os militares e as forças policiais. São vistos como os protetores desses grupos contra os outros “elementos” que os ameaçam, em seus papeis de guardiões dos melhores valores sociais, como uma espécie de força que mantém o mundo unido por um grupo de pessoas cuja lealdade ao Estado é comprada com encorajamentos constantes que os fazem sentir em conflito.

Quando todo o resto falha, é claro, há o poder brutal: o tipo a que pessoas de fora do Grupo Identitário de Base estão mais suscetíveis a sentir a força. Recentemente, vimos os militares adotarem formas mais impessoais de matar e a política adotar mais técnicas militares para manter a ordem. Nos Estados Unidos, vimos a população carcerária expandir ao ponto em que literalmente não há mais espaço onde colocá-la. Mas até o poder bruto tem seu aspecto “suave”: o esforço para assegurar ao Grupo Identitário de Base que está sendo protegido e cuidado.

Ambos o poder suave e o agressivo são parte do processo desde os primórdios da era moderna. Mas, como todo o resto do Estado, as ferramentas e técnicas se tornaram mais sofisticadas e mais abrangentes com o tempo. Esses poderes estão por toda parte hoje em dia, em formas que nunca estiveram no passado.

Agency: Se um sistema operacional é uma analogia para o Estado, qual seria a analogia digital para sua ideia de alcançar uma sociedade anárquica?

Eric: Já temos uma, em sistemas de fonte aberta, como o Linux, pelo menos em sua forma ideal. Mas o problema com o digital é o mesmo, de verdade, que com qualquer outra instituição ou produto do Estado: o mundo digital foi concebido e orquestrado por uma colaboração entre o governo e o setor privado que é central no Estado. Ele foi construído para alcançar os objetivos dessa parceria, não para nos libertar ou criar uma comunidade global, como alguns barões da tecnologia gostam de afirmar. Então é uma questão de saber como forjar a cultura digital que queremos, ao invés de permitir aos barões da tecnologia que nos canalizem à produção de valor econômico. Enquanto o Estado existir, tentará frustrar nossos esforços para isso, nessa área tanto quanto em tantas outras, para que aceitemos a visão do Estado, uma visão especulativa, intrusiva e dominadora do futuro digital. Não temos que fazer isso, mas reivindicar uma cultura digital de fontes abertas será equivalente a uma revolução social online.

Agency: O que você quer que os leitores tirem do seu livro?

Eric: Isso depende do leitor. Se você é anarquista, espero que a minha contribuição lhe encoraje a refletir e elaborar suas próprias ideias sobre o Estado. Como anarquistas, somos idealmente adaptados a analisar e compreender essa coisa porque o anarquismo é a única corrente de pensamento político que não aceita o Estado como um fato dado (sic). Somos os únicos que não automaticamente procuram por formas de resolver os problemas do mundo através do Estado, que não assumem que uma sociedade complexa precisa do Estado para se organizar (sic).

Se você não é anarquista, espero que o The Operating System provenha um novo olhar sobre a forma em que o Estado nos organiza e articula alguns dos problemas inerentes ao sistema que impõe. E espero que encoraje quem não é anarquista a pensar mais amplamente sobre soluções aos problemas que a Terra e seres humanos encaram. Somos ensinados a pensar que qualquer solução coletiva aos nossos problemas que não inclua o Estado e o capital é uma forma impossível de utopismo; na realidade, o Estado e o capital são nossas únicas barreiras.

Agency: O que precisa mudar na sociedade em relação à forma em que as pessoas pensam sobre o Estado?

Eric: Para começar, estamos acostumados a pensar sobre o governo e o capital como duas coisas separadas, geralmente existindo em tensão um contra o outro. Há tensões, é claro, mas o que tentei demonstrar é que são na verdade duas partes de um único sistema que está equipado com todos os recursos da Terra — incluindo as vidas humanas — em uma missão incansável de construir riqueza: o resto não importa.

Mas é também sedutor, provém humanos com um modelo completo para vivermos nossas vidas. Por que se preocupar em pensar para além do Estado, quando ele faz que seja tão fácil para nós apenas aceitarmos o sistema como é? Mas isso, é claro, é exatamente o porquê de termos que aprender a pensar além dele. O Estado não é apenas um obstáculo ao tipo de sociedade que gostaríamos de ter, é o que temos ao invés dela.

Já sabemos o que temos que fazer e, até certo ponto, já estamos fazendo: identificar nódulos de resistência e formar redes entre eles para que possamos nos reconhecer e organizar em torno de suas convergências; por exemplo, o Standing Rock e o MST no Brasil, a revolta dos fazendeiros na Índia e o Black Lives Matter, a luta guerrilheira da Greta Thunberg contra a cúpula do clima e a luta para abolir a polícia. Um dos aspectos mais comuns da história do Estado moderno, por exemplo, tem sido uma guerra infindável contra os povos originários e comunidades de minorias políticas. Sua luta pela existência é uma luta de todos que não querem que o Estado alcance sua visão monocultural. Então isso é absolutamente crítico — como é fazer todas essas conexões e alianças.

>> Eric Laursen mora no Massachusetts. É um organizador anarquista, escritor e estudioso. Eric esteve ativo em movimentos contra a guerra e o imperialismo e para justiça econômica global por muitos anos e é um organizador da New York City Anarchist Book Fair. É autor do novo livro The Operating System: an Anarchist Theory of the Modern State (AK Press).

Fonte: https://www.anarchistagency.com/commentary/understanding-the-modern-state-an-interview-with-eric-laursen/

Tradução > Sky

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/22/eua-lancamento-o-sistema-operacional-uma-teoria-anarquista-do-estado-moderno/

agência de notícias anarquistas-ana

Um aguaceiro —
Os pardais da aldeia
Se agarram ao capim.

Buson

[Reino Unido] Chamada de trabalhos para o Simpósio “O anarquismo na península ibérica”

Encontra-se aberta a chamada de trabalhos para o Simpósio “O anarquismo na península ibérica”, um evento promovido pelo Centro de História da Ibero-América (CHIA, pela sigla em inglês) da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e destinado a investigadores pós-graduados e em início de carreira.

O Simpósio terá lugar no início de junho de 2022, em data a anunciar, em presença, na Universidade de Leeds, e online.

As propostas devem ser enviadas para o endereço anarchist.iberia2022@gmail.com até 31 de janeiro de 2022.

As propostas, para apresentações de vinte minutos, devem ser em inglês e incluir um título, um resumo de 300-500 palavras, e uma biografia curta.

Os organizadores visam submeter uma seleção dos artigos do simpósio a uma revista acadêmica.

Contato e mais informações pelo endereço: anarchist.iberia2022@gmail.com

agência de notícias anarquistas-ana

no mesmo galho
uma formiga a passeio
outra a trabalho

Ricardo Silvestrin