[Chile] Abaixo ao Estado Policial: Declaração Pública de Solidaridad Obrera (IWA-AIT)

DECLARAÇÃO PÚBLICA

Diante das infelizes notícias em que outros jovens foram assassinados às mãos de um membro das forças de segurança do Estado, declaramos:

1.- Nossa solidariedade para com as famílias de Francisco e Camilo nestes momentos eles estão passando pelo que significa perder de forma violenta um ente querido.

2.- Não é a primeira vez que um ou vários membros da instituição policial estão envolvidos em um procedimento que termina com a morte de uma pessoa em circunstâncias pouco claras ou buscando abertamente a morte da pessoa.

3.- Acreditamos que esta não é uma ação individual de um oficial, mas faz parte de uma estratégia global do Estado do Chile contra pessoas que parecem diferentes ou têm pensamentos e/ou práticas contrárias àquelas que são difundidas como únicas no neoliberalismo. Isto nos mostra que o Estado é um aparelho que se defende e defende seus lacaios, tanto políticos quanto empresários.

4.- Vemos que as instituições de segurança do Estado: Carabineros, PDI, Forças Armadas têm como objetivo, não a proteção dos habitantes, trabalhadores e pessoas comuns, mas a proteção do status quo, impedindo que as pessoas vivam de acordo com suas convicções e crenças, organizadas entre si sem a interferência dominante do Estado e da sacrossanta propriedade privada.

Como trabalhadores formais e informais agrupados na organização anarcossindicalista Solidaridad Obrera, chamamos a passar de uma resposta espontânea para uma estratégia de organização de assembleias, grupos de amigxs, trabalhadores e residentes como um pólo organizado e coordenado de forma autônoma, a fim de tornar real o apoio mútuo e preparar a resposta social aos planos da elite política e empresarial para usar o Estado como uma ferramenta de dominação e repressão contra o povo. O surto social ainda não parou. Abaixo o estado policial, parem de criminalizar a ação social e artística do povo.

Solidaridad Obrera (IWA-AIT)

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

glóbulo alado
halo da lua
no olho do lago

Marcelo Steil

Kropotkin, 100 anos

Há um século, morria pensador notável do anarquismo e das lutas revolucionárias. Ainda atual, ele derrubou dogma crucial ao liberalismo e demonstrou a centralidade da cooperação – nas sociedades e na própria evolução das espécies

Por David Graeber e Andrej Grubačić | Tradução: Simone Paz

De vez em quando — mas não com muita frequência — algum argumento particularmente convincente contra o senso político comum e dominante apresenta tal choque para o sistema, que torna-se necessário criar um corpo teórico inteiro para refutá-lo. Essas intervenções são eventos por si mesmas, no sentido filosófico; isto é, eles revelam aspectos da realidade que eram amplamente invisíveis mas que, após revelados, parecem tão óbvios que nunca mais passarão despercebidos. Grande parte da direita intelectual se dedica a identificar e eliminar tais desafios.

A seguir, apresentamos três exemplos:

Nos anos 1680, um estadista hurão (da etnia Huron-Wendat), chamado Kondiaronk, que tinha passado pela Europa e estava intimamente familiarizado com a sociedade de colonos francesa e inglesa, travou uma série de debates com o governador francês de Quebec e com um de seus principais assessores, um tal de Lahontan. Nestes debates, ele apresentou o argumento de que a lei punitiva e todo o aparato do estado existiam não por causa de alguma falha fundamental na natureza humana, mas devido à existência de outro conjunto de instituições — propriedade privada, dinheiro — que, por sua própria natureza, levavam as pessoas a agir de determinada forma e, por isso, medidas coercivas tornavam-se necessárias. A igualdade é, portanto, a condição para qualquer liberdade significativa, argumentou.

Posteriormente, Lahontan transformou esses debates em um livro que foi um grande sucesso nas primeiras décadas do século XVIII. Tornou-se uma peça teatral que esteve em cartaz durante vinte anos em Paris e, aparentemente, todo pensador iluminista escreveu alguma imitação. Por fim, esses argumentos — e a ampla crítica indígena sobre a sociedade francesa — tornaram-se tão poderosos que os defensores da ordem social existente, como Turgot e Adam Smith, tiveram que, efetivamente, inventar a noção de evolução social como uma resposta direta. Aqueles que primeiro propuseram a ideia de que as sociedades humanas podiam ser organizadas de acordo com seus estágios de desenvolvimento, cada um com suas próprias tecnologias e formas de organização características, foram bastante explícitos em explicar que era disso mesmo que se tratava. “Todos amam liberdade e igualdade”, observou Turgot; a questão é o quanto de cada um deles é consistente com uma sociedade comercial avançada, baseada em uma sofisticada divisão de trabalho. As teorias de evolução social resultantes dominaram o século XIX e ainda hoje estão entre nós, embora de forma ligeiramente modificada.

No final do século XIX e início do século XX, a crítica anarquista do estado liberal — de que a lei baseava-se basicamente na violência arbitrária e que, em última instância, não passava de uma versão secularizada de um Deus todo-poderoso que só poderia ter criado a moralidade por estar do lado de fora dela — foi levada tão a sério pelos defensores do Estado, que teóricos jurídicos de direita, como Karl Schmitt, acabaram criando a armadura intelectual do fascismo. Schmitt termina sua obra mais famosa, Teologia Política, com um discurso retórico contra Bakunin, cuja rejeição do “decisionismo” — a autoridade arbitrária para criar uma ordem jurídica, mas também para afastá-la — teria sido, em última análise, tão arbitrária quanto a autoridade à qual Bakunin afirmava se opor, afirmou ele. A própria concepção de teologia política de Schmitt, fundamental para quase todo o pensamento de direita contemporâneo, foi uma tentativa de responder à obra “Deus e o Estado”, de Bakunin.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/kropotkin-100-anos/

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mostro sem disfarce
o tempo, a vida e o vento
marcando minha face

Cristina Saba

De Hitler a Mao Tse Tung: obra inédita analisa literatura de ditadores

A biblioteca dos ditadores, de Daniel Kalder, investiga os impactos de obras literárias para o funcionamento e a manutenção de regimes totalitários

Durante o século, o mundo foi assolado por guerras e conflitos gerados por ditadores que ficaram marcados na História. Muitos tiranos possuíam poder de convencimento e influenciaram negativamente diversas nações, como foi o caso de Adolf Hitler.

Durante a Segunda Guerra Mundial, mais de 25 mil obras foram queimadas em praças públicas alemãs. Mais tarde, o livro Minha luta, escrito pelo Führer, vendeu mais de 5 milhões de cópias.

Com o passar do tempo, muitos títulos escritos por ditadores foram banidos de livrarias ou passaram a ser vistos como piadas. Inclusive, até hoje, vários deles não são lidos.

Em A biblioteca dos ditadores, recém-lançada pela editora Harper Collins, o jornalista britânico Daniel Kalder apresenta uma nova perspectiva sobre o assunto, trazendo uma análise minuciosa sobre a literatura de ditadores.

De Hitler a Mao Tse Tung, o escritor revela, nesta obra inédita, os impactos das escritas de ditadores para o funcionamento e a manutenção de regimes totalitários ao redor do mundo. “A alfabetização é uma praga, assim como uma bênção”, escreveu Kalder.

De acordo com o jornalista, atualmente, a sociedade enfrenta ideologias radicais e líderes populistas, que se assemelham aos tiranos que existiram durante o século 20. Além disso, para o autor, na atualidade há um retorno do discurso nacionalista, que ameça à democracia.

Com tradução de André Gordirro, este livro encontra-se disponível na Amazon em formato Kindle e capa comum.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/hitler-a-mao-tse-tung-obra-inedita-analisa-literatura-de-ditadores.phtml

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esboço no céu
no mermar
da d’alva

Guimarães Rosa

 

[Nicarágua] Uma Revolução na Manágua de Hoje

Gabriel Pérez Setright é um artista, anarquista e anticapitalista. “Minha esperança para o futuro é que as pessoas confiem no poder que elas têm para mudar as coisas”.

Em uma pequena rua sem saída na Colônia Miguel Bonilla de Manágua, há uma casa com uma distinção particular: uma grande bandeira arco-íris voa na entrada. Ela contrasta com o azul intenso das paredes, uma das quais é marcada por cartas anunciando que você chegou a La Rizoma, um centro cultural fundado por Gabriel Pérez Setright.

O jovem de 24 anos transformou sua casa em um centro comunitário e se diz anarquista e anticapitalista. Ele é um escritor e artista visual, e apresentou sua obra “Outro (fim do) mundo é possível”, na qual contrasta as fotografias icônicas da Revolução Sandinista, capturadas por Susan Meiselas, com imagens de Manágua moderna, com grandes edifícios e empresas transnacionais.

Sua proposta gira em torno da abordagem da pós-memória, uma corrente de teoria histórica que sugere que as lembranças de um evento ou tempo específico vêm de outras fontes que não a própria experiência. A literatura, as artes e as imagens são boas ferramentas para entender uma era. Para Gabriel, não ter vivido durante a revolução não é uma limitação para poder criticar em profundidade um dos eventos históricos mais importantes da Nicarágua.

“Eu introduzo um termo que é dissonância geracional. Sei que é muito feio dizer que a revolução não funcionou e que não gerou o que queria gerar, mas a era neoliberal foi o exemplo claro de que todos os valores que supostamente eram fomentados nos anos 80 se perderam e tudo se tornou uma sociedade incrivelmente capitalista e individualista”, explicou o artista.

Sua proposta consiste em várias montagens fotográficas que estão atualmente em exposição no Instituto de História da Nicarágua e da América Central (IHNCA) da Universidade Centro-Americana (UCA). Lá você pode ver o “homem com o Molotov” em frente a uma loja McDonalds, ou os guerrilheiros celebrando o triunfo da revolução no estacionamento das Galerias de Santo Domingo.

“Busquei ícones muito reconhecíveis, quero que pensemos no contexto atual do neoliberalismo e o contrastemos com os valores que vêm dos anos 80 e, por outro lado, como seria se tomássemos as Galerias ou se houvesse uma revolução na Manágua de hoje. E também para perceber que as coisas mudaram radicalmente. Para questionar a Manágua em que estamos vivendo agora”, disse Gabriel.

“Os centros culturais operam com muita burocracia”.

Gabriel é formado em Psicologia e Filosofia pela Universidade Warren Wilson na Carolina do Norte, EUA. Seu trabalho formal consiste em assistir e coordenar delegações universitárias daquele país, organizando excursões acadêmicas a Matagalpa, Costa do Caribe e Cuba. Seu pai é nicaraguense e sua mãe é americana.

Seu trabalho regular também gira em torno de três eixos. Três projetos principais que, embora trabalhem separadamente, se alimentam e se complementam. A primeira é a Casa Cultural La Rizoma. Gabriel converteu a casa onde cresceu em um espaço aberto ao público. Ele o administra com outros dois colegas, Kenia Castaldo e Aparecida Argüello, e juntos organizam concertos, exposições de arte e espaços para reflexão. Eles também hospedam pesquisadores estrangeiros que estão de passagem pela Nicarágua para desenvolver projetos.

O nome vem de uma teoria criada pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari que conceitua um modelo ou diagrama sem centro, subterrâneo, fluido, ativo, e em constante movimento. Na botânica, um rizoma é um sistema de raízes que cresce horizontalmente. Segundo Gabriel, um conceito aplicável aos valores emblemáticos de seu coletivo: Horizontalidade, experimentação e interconexão.

“Queremos criar espaços seguros. Não queremos cobrar por eventos, ou fazer coisas que geram dinheiro, esse não é o tipo de comunidade que queremos criar, queremos criar uma comunidade baseada no respeito, na horizontalidade e que esteja aberta a todos. Aqui os centros culturais operam de forma muito burocrática, elitista e inacessível. Trabalhamos para descentralizar o poder das ONGs e desses centros que têm muito dinheiro”, disse Gabriel.

Precisamos de mais espaços pequenos em toda a cidade, para que possamos administrar eventos sem a necessidade de passar pelo estado ou pelos centros culturais que têm fama e dinheiro, não é que seus eventos sejam ruins, é que eles têm o poder e a decisão de dizer qual projeto vai e qual não vai. Se você criar uma rede de pessoas fora dela, você pode administrar sua cultura”, acrescentou o jovem.

Os outros dois projetos são o blog Dissenso Nicarágua e o grupo de arte Experimental Coletivo.

Dissentir no sistema atual

Gabriel acredita que cada uma das ações que realizamos tem uma conotação eminentemente política. Para ele, a base de sua abordagem, como escritor e como artista, é questionar o que está acontecendo no país e para isso ele retoma correntes ideológicas como o anarquismo, o feminismo e o anti-neoliberalismo.

Em seu blog, Disensus Nicarágua, ele reflete sobre coisas como moda e o uso de elementos culturais em benefício do capitalismo e das grandes empresas. Ele também analisa o discurso atual e dá outros significados às práticas políticas.

“Minha posição é de trabalho comunitário e de relacionamento em um pequeno lugar e atores que se conhecem e que compartilham uma história, não estamos interessados em soluções que venham através de eleições. O anarquismo é contra a centralização de tudo através do Estado. Para mim, as necessidades são resolvidas através de organizações comunitárias. Minha esperança para o futuro é que as pessoas confiem no poder que elas têm para mudar as coisas”, revelou o artista.

O anarquismo é uma corrente de pensamento cujos expoentes principais incluem o russo Mikhail Bakunin e o britânico William Goldwin. Sua filosofia política e social visa o desaparecimento do Estado, de seus órgãos e instituições representativas e defende a liberdade do indivíduo acima de qualquer autoridade.

Mas o que significa ser um anarquista na sociedade moderna? Segundo Gabriel, isso significa estar consciente do sistema em que vivemos e confrontá-lo diariamente através de ações cotidianas. Em um mundo que se desenvolve com uma base centrada na conformação do Estado como centro e reitor da vida, além de uma economia baseada eminentemente na produção de riqueza para o grande capital, para anarquistas como Gabriel, o poder está em saber quais são as contradições que podem ser enfrentadas e repensar as formas tradicionais de participação na política do país.

“Os jovens receberam uma série de ferramentas e nos dizem para usar essas ferramentas para mudar o mundo. O que fazemos é questionar as próprias ferramentas que eles estão nos dando para compor o mundo. Quando o jogo político é jogado através do Estado e os jovens veem que não está funcionando, eles buscam novas formas de fazer política, seja através da arte, das histórias, da dança, da música”, disse o artista.

“Eu falo em criar novos imaginários. O exemplo claro que eu penso é questionar a aceitação do Neoliberalismo, este sistema que está aqui para ficar e a retórica de que você tem que abrir um negócio, ter uma família, ganhar dinheiro, comprar algo, é isso que estamos tentando questionar”, acrescentou Gabriel.

Fonte: https://dev.niu.com.ni/una-revolucion-la-managua-hoy/

Tradução > Liberto

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o bambual se encantava
parecia alheio
uma pessoa

Guimarães Rosa

[Espanha] ECOOPAN, Padaria Artesanal Autogestionada

Nos apresentamos

ECOOPAN surge no ano 2000 em torno de um produto simples e básico que desde séculos constitui uma das principais fontes da alimentação humana.

A origem do projeto está muito vinculada ao nascimento e desenvolvimento da cooperativa “Bajo el Asfalto está la Huerta” (BAH!) e de outros coletivos que iniciavam em Madrid seu trabalho pela agroecologia e a soberania alimentar.

ECOOPAN é constituída por pessoas que de maneira autogestionária fazemos rodar esta iniciativa, com três objetivos fundamentais:

1) Fazer parte ativa na elaboração de um tecido estruturado em base a Grupos de Consumo, que desde seus inícios, foram espaços construídos pelos movimentos sociais onde pôr em prática a transformação pela qual trabalham, apostando por um consumo ecológico, responsável e próximo.

2) Entender o consumo como um ato político. Estabelecendo relações diretas, em circuitos curtos, sem intermediários, de apoio mútuo e confiança, que funcionam e evoluem de um modo BARRICADA alternativa à estrutura capitalista.

Esta é nossa aposta e o que dá sentido a nosso projeto, somar nosso pequeno grão de areia na criação de espaços desmercantilizados onde pôr em prática outras relações sociais e de consumo possíveis.

3) Difundir através de nosso blog, oficinas, encontros, jornadas,… os saberes do pão, sua cultura, seu simbolismo e o saudável hábito alimentício que representa, assim como a atividade e o pensamento do movimento agroecológico.

Nos contacte

Se sóis um Grupo de Consumo e estais interessados em nosso projeto, nos contacte. Se não pertences a nenhum grupo de consumo, te animamos a que te incorpores a algum deles, ou a que formes o teu próprio.

Onde estamos?

Em Perales de Tajuña, compartilhando espaços, organização, lutas e vivências com outros projetos de agroecologia rebelde que habitam neste povoado, situado a 35 km. de Madrid.

ecoopan.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

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Você se parece
com este galho de acácias
repleto de sóis.

Eolo Yberê Libera

[Espanha] “Queridos filhos, me matam por ser bom e querer que não passem fome”

Por Henrique Mariño | 27/01/2021

As despedidas dos executados pelo franquismo são “o gênero literário que expressa com mais emoção o drama da guerra civil”, segundo Xesús Alonso Montero, que em seus 92 anos segue compilando as últimas cartas de presos galegos.

Um dia antes de que o executassem, Manuel Estévez Gómez enviou a sua família uma carta impressionante na qual explicava o motivo de sua morte nas mãos de “todos esses canalhas que se chamam representantes da justiça”. Datada em 28 de janeiro de 1937, se dirige a seus “queridos filhos” e em especial a Emilia, a maior: “Me matam por ser bom, por querer que vocês não passem fome e não andem descalços, em uma palavra, por defender um governo que estava constituído”.

Este pedreiro de Tui escreve com dificuldade, comete erros de ortografia e evidencia que não pode ir à escola, mas entende quem é e a que mundo pertence. “É a carta de um trabalhador que não sabe pontuar. Um homem pobre que sustenta seis filhos aos trinta e quatro anos. Um trabalhador que se filiou à CNT para que defendesse seus direitos laborais, ainda que talvez não tivesse maior vinculação com o sindicato, nem saberia quem era Kropotkin nem outros grandes teóricos do anarquismo”, explica o filólogo Xesús Alonso Montero.

Manuel era tão humilde que nem fotos tinha. Por isso, quando Benito Prieto Coussent o imortalizou no cárcere, se mostrou tão agradecido que lhe dedicou umas linhas no verso daquele rosto que franzia o rosto circunspecto e olhava sem temor à obscuridade: “Bendito sejas, pintor, / que tal retrato pintou / nos últimos momentos, / que à morte me condenaram. / Tão bom é seu coração / e é tanta sua bondade, / não permitiu que matassem / sem tal obra terminar”.

É o único pagamento que pode fazer a seu companheiro preso, que trabalhava como professor de desenho no instituto de Tui e pintaria outros vinte e três retratos de encarcerados. No entanto, sua pena desordenada esconde uma intenção poética, como percebeu Alonso Montero antes de burilar seu texto corrido para uma maior compreensão do leitor. “Provavelmente não conhecia a diferença entre poesia e prosa, mas deve ter pensado muito porque ao final está escrevendo versos. Não só comunica sua gratidão, mas o faz artisticamente”.

Assim, suas palavras em sequências rimadas de oito sílabas são um poema oculto que acompanha a dedicatória aos seus: “Retrato que dedico a minha esposa e seis filhos como recordação nos últimos momentos”. Sua única herança, além da pobreza, daí seu sincero agradecimento ao pintor. “Quando morre alguém da alta sociedade, lhe arrebatam o maior, mas seus filhos não vão passar fome. Manuel Estévez Gómez, em troca, é consciente de que os deixa na mais absoluta miséria”, argumenta o catedrático de Língua e Literatura.

Esse testamento literário em verso e, sobretudo, a emocionante carta à sua família impactou de tal modo o ex-presidente da Real Academia Galega que decidiu ilustrar com seu retrato o livro Cartas de republicanos galegos condenados a morte (1936-1948), publicado por Xerais. “Me matam por ser bom”, repete. “Uma expressão verdadeiramente estremecedora, porque em efeito era assim. O matavam por ser da CNT ou porque defendia que seus filhos não tinham por que andar descalços, nem passar fome nem frio?”.

Suas palavras, segundo ele, deveriam figurar nos livros de texto, do mesmo modo que Sarkozy ordenou que se lesse aos escolares a última vontade de Guy Môquet, um adolescente que lutou na resistência contra os nazis. “E isso que o ex-presidente francês não era precisamente comunista”, ironiza Alonso Montero, que sublinha em seu livro que Manuel “falava desde sua perspectiva de classe, desde sua condição de pobre, em um sistema, o da Segunda República da Frente Popular, não que tenha a obrigação de defender o Governo, legítimo, que está comprometido com essas aspirações”.

Um modesto pedreiro cuja maior preocupação ante seu iminente final é a precária situação na qual ficam os seus: “E eu, que não matei ninguém, respeitei todo o mundo, me condenam à pena de Morte pelos testemunhos que se prestaram a declarar contra mim falsamente. Não te digo quem são esses senhores porque creio que o sabes. E por esses canalhas os deixo na mais espantosa miséria […]. Se despede de todos vocês, de mãe e filhos, este que sempre os amou e não os vê mais”, escreve Manuel.

“Bastava saber quem éramos para nos matar”

Em seus 92 anos, Alonso Montero segue compilando as despedidas dos presos galegos executados pelo franquismo, ao tempo que se pergunta por que não saíram à luz mais compilações similares. Cartas de republicanos galegos condenados a morte (1936-1948) reunia 120 textos de 57 autores, aos quais somaria seis firmados por cinco réus quando reeditou o livro. “Segui coletando cartas, de modo que se Júpiter me dá vida publicarei uma terceira edição com umas quarenta mais”, prevê o ensaísta.

O conjunto das cartas é heterogêneo em todos os sentidos: político, ideológico, religioso… Algumas cartas têm um estimável valor literário, enquanto que outras simplesmente refletem as últimas vontades ou apenas um lacônico adeus. Há testamentos convencionais com linguagem pomposa ou que criticam as más ações das autoridades franquistas. Determinadas linhas abraçam a Deus, ainda que figurem exemplos de católicos que redigem diatribes anticlericais. Também destilam a esperança de que a Segunda República resistirá.

Muitas devem sua moderação e prudência ao convencimento de que uma prosa incisiva não passaria no crivo da censura, embora as enviadas clandestinamente são explícitas e denunciam a sublevação, assim como as torturas padecidas entre grades. São por isso de especial interesse as cartas dos comunistas, cujo destinatário último é a História, e as dos guerrilheiros, que enaltecem a luta antifranquista em um profuso epistolário que data de 1947 e 1948.

A crueza do relato de Segundo Vilaboy(“Camaradas: se dissesse tudo o que comigo fizeram e o que tenho que suportar, compreenderias por que a última hora não me assusta”) mereceu a resposta da Pasionaria, que considera a carta de um “simples militante” do PCE “o mandato eterno de um herói do povo”. Ademais, destacam as do chefe guerrilheiro Antonio Seoane e do secretário geral do PCE na Galícia, José Gómez Gayoso: “Tinha mil vezes razão Vilaboy quando dizia que estes não são seres humanos, que são feras”.

Não obstante, o autor deixa claro que o franquismo se enfureceu com simpatizantes de todas as formações, inclusive a moderada Esquerda Republicana. O ataque a todo sinal de republicanismo responde, na opinião do ensaísta, a uma “estratégia de terror” contra a Frente Popular em uma terra onde não houve guerra, mas repressão. “No conselho [de guerra] podemos comprovar como tudo vinha ordenado assim […]. Bastava saber quem éramos para nos matar”, escreveu o galeguista Víctor Casas. O pensamento mesmo era objeto de castigo.

As cartas resumem resignação, justiça, perdão, vingança e inocência, pois muitos não entendem por que serão condenados à morte ou crêem que os rebeldes serão derrotados no campo de batalha, ainda que talvez neste caso deveríamos falar de esperança. A conservou durante sua clausura, por exemplo, Josefa García Segret, que fingiu uma gravidez para evitar a pena de morte. É a única mulher presente em um livro que recolhe as últimas letras escritas em capilla, “o gênero literário que expressa com mais emoção o drama da guerra civil”.

Fonte: https://rebelion.org/queridos-hijos-me-matan-por-ser-bueno-y-querer-que-no-padezcais-hambre/

Tradução > Sol de Abril

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vermelho relâmpago
irrompe do capim seco:
a cobra coral.

Anibal Beça

[Espanha] Filhas da Anarquia. A tradição dos nomes libertários

Semelhança anárquica de alguns nomes, filhos do tempo rebelde no qual estes também eram anunciadores de um mundo novo.

Por Chema Álvarez Rodríguez | 09/02/2021

Era 1936 em Jerez dos Caballeros. María Bruguera Pérez e Francisco Torrado Navarro levavam o sol e o trigo dos campos no mundo novo de seus corações. Ela filha e neta de anarquistas: seu pai obreiro da fábrica de rolhas de cortiça na Sierra Sudoeste extremenha, vinda a menos, e seu avô catalão de Palafruguell, Gerona. Sua mãe, Elisa Pérez, bordadeira, tinha um pequeno negócio de alimentação no povoado de Jerez, província de Badajoz.

María e Francisco se amavam e amavam a liberdade. Ambos, junto ao irmão de María, Antonio Bruguera, haviam contribuído para fundar as Juventudes Libertárias em Jerez dos Caballeros em 1932. Uma coisa trouxe a outra e pouco depois fundaram também o grupo de teatro libertário “Ni Dios ni Amo”, com o qual percorriam os povoados ao redor.

María tinha 21 anos quando as colunas fascistas sob o mando de José Álvarez e Ildefonso Medina Mogollón entraram em Jerez, em 18 de setembro de 1936. Segundo historiou Francisco Espinosa, sua passagem deixou 60 cadáveres na rua, todos de esquerda. Afortunadamente, tanto María como o resto de sua família conseguiram fugir antes da chegada dos rebeldes.

O pai de María, Antonio Bruguera, passou à zona republicana junto a centenas de pessoas que fugiam do avanço franquista. O grupo formado por María, sua mãe Elisa Pérez, seu irmão Antonio e seu companheiro Francisco, não teve tanta sorte e ficou preso na terra queimada dos fascistas. Tentaram cruzar Portugal, sem nenhum êxito devido a que a fronteira estava fechada, ante a aglomeração de gente foragida desde as províncias de Huelva e Badajoz. Afortunadamente. A polícia, o exército e os paramilitares fascistas portugueses estavam entregando os foragidos às hostes de Franco.

O grupo familiar retrocedeu por terras de Badajoz e se refugiou muito perto de Jerez, na fazenda “La Media Nava”, onde os pais de Francisco Torrado tinham uma parcela. Nas choças daquela fazenda se refugiaram outros muitos foragidos, e em uma daquelas choças María e Francisco gestaram um menino que nasceria no mesmo lugar em 8 de junho de 1937, sendo  María assistida no parto por sua mãe Elisa Pérez.

A poucos meses após nascer o bebê, em novembro de 1937, a Guarda Civil deu uma batida e encontrou as choças. Realizaram um massacre. Quase 20 pessoas foram executadas naquele dia, assassinadas, naquela fazenda de “La Media Nava”, entre elas o companheiro de María, Francisco Torrado, sua mãe, Elisa Pérez, e Bautista Méndez, secretário das Juventudes Libertárias de Jerez dos Caballeros. No total, entre 16 e 18. As crônicas, orais, não esclarecem. O irmão de María, Antonio Bruguera, pôde escapar antes que chegassem os guardas. María se salvou de ser assassinada porque o capitão dos civis se apiedou ao ver o bebê tão pequeno ou porque, simplesmente, não saberia o que fazer com ele se matassem a mãe, que foi detida e passou, desde então, um calvário de cárcere em cárcere. Passou 8 dias no cárcere de Jerez dos Caballeros, e dali foi ao de Badajoz, onde foi julgada em dezembro e sentenciada à morte. Três dias depois da sentença um advogado defensor lhe comunicou que haviam comutado a pena por 30 anos de reclusão.

Durante 8 anos e um mês percorreu os penais de Badajoz, Tarragona, Salamanca, Valladolid, Saturrarán e Madrid. Em 1946 saiu livre, mas mais convencida se possível de suas ideias e comprometida ainda na clandestinidade com a CNT e com Mujeres Libres, após conhecer no cárcere de Madrid as irmãs Lobo e María Carrión, antigas militantes desta organização. Pouco depois se casaria com Antonio Lobo, irmão de suas antigas companheiras no cárcere e também companheiro anarquista. Junto a ele, logo que saiu do cárcere, o primeiro que fez foi ir buscar seu filho, o fruto de sua união com Francisco Torrado e quem a salvara de morrer assassinada em novembro de 1937.

A María só permitiram ter seu filho junto a ela durante oito meses no cárcere de Badajoz, em 1938, dado que o menino era muito pequeno, tendo que o deixar depois aos cuidados de seus sogros, quando a transladaram ao Convento das Oblatas em Tarragona, cárcere de mulheres regido por monjas. Durante este tempo, enquanto estava em Badajoz, se inteirou de que seu pai, Antonio Bruguera, antigo presidente da Casa del Pueblo de Jerez dos Caballeros, havia sido capturado e fuzilado em 17 de novembro de 1939. Tudo isso pudemos saber porque María, com o fim do franquismo, foi uma das fundadoras de Mujeres Libertarias e da revista deste coletivo, de mesmo nome, que lhe dedicou uma monografia ao falecer, em Madrid, em 26 de dezembro de 1992.

Floreal é o oitavo mês do calendário republicano francês, o segundo mês da primavera, entre Germinal e Pradial. María Bruguera e Francisco Torrado puseram esse nome no filho que engendraram e tiveram nos campos jerezanos. Floreal. Como anarquistas praticantes que eram, cuja vida e ideias iam mais além de sua ação política, apelaram com este nome à proteção da Natureza, das flores que se abrem entre abril e maio, subtraindo assim à Igreja o poder onímodo que sempre havia demonstrado ter através da imposição de nomes cristãos.

Esta prática, a de pôr nomes não cristãos nem religiosos nos filhos e filhas, foi um costume entre as famílias de anarquistas principalmente, embora outros muitos militantes de esquerda (comunistas, socialistas, republicanos…) também o exerceram como um sinal de anticlericalismo e de início de um mundo novo.

Tudo isso como um costume herdado, em parte, da maçonaria e dos grupos maçônicos, onde os mesmos maçons mudavam o nome ou punham em seus filhos ou filhas aqueles que tinham que ver com o mundo clássico, como fez o maçom e republicano de Montijo (Badajoz) Juan Antonio Codes Rodríguez, membro primeiro da loja “Emerita Augusta” e depois da loja “Triángulo Montijano”. Codes batizou  seus filhos com o nome de Lealtad, Virgilio e Sócrates.

Já “El Condenado”, jornal coletivista, defensor de “La Internacional”, em sua edição do domingo 20 de abril de 1873, reproduzia a ata de uma sessão celebrada por internacionalistas na noite de 26 de fevereiro de 1873 em Sanlúcar de Barrameda, na qual dois dos membros apresentavam à Associação seus filhos nascidos no dia anterior, com o fim de que esta lhes desse nomes, “com o que se diferenciarão entre os demais”, resultando como acordo da Associação chamar o filho de Antonio Aguilar e de Francisca Fernández “Paso al Progreso Humano”, e à filha de Agustín González e Encarnación Morantes “Europa Anárquica”.

A imprensa anarquista de finais do século XIX e de princípios do XX oferece testemunho abundante dos nomes anarquistas e das cerimônias que os acompanhavam, sem deixar de mencionar as reações que suscitavam nos poderes da época, tanto estatais ou municipais, como os eclesiásticos. Por não falar de “as boas pessoas”.

Nos povoados, a Igreja tinha como fonte de recurso os direitos paroquiais, um dinheiro que cobrava pelo batismo e pela inscrição em seus registros próprios dos recém-batizados. Os nomes não católicos subtraiam ao recém-nascido do registro eclesial, o qual ocasionava sérias perdas econômicas ao clero.

Como fonte de renda que era, a Igreja recomendava pôr ao recém nascido o nome do Santo do dia no qual tivesse vindo ao mundo. Em ocasiões ao nome da criança iam unidas diversas superstições. Uma pesquisa feita em 1900 nos informa que na Baja Extremadura se acreditava que os nomes de Melchor, Gaspar e Baltasar preservavam às crianças da epilepsia (Javier Marcos Arévalo, Nacer, vivir y morir en Extremadura. Creencias y prácticas en torno al ciclo de la vida a principios de siglo).

Os casais ou “casamentos” de anarquistas, simplesmente unidos mediante um vínculo de companheirismo ou mediante matrimônios civis, costumavam pôr em seus filhos e filhas nomes relacionados com os meses da revolução francesa (Germinal, Floreal, Pradial), a Natureza (Aurora, Sol, Amanecer), a história clássica (Sócrates, Horacio, Mario), a ciência (Progreso, Darwin, Universo), a Ideia anarquista (Acracio, Libertad, Liberto), intelectuais e ativistas (Bakunin, Ravachol, Voltairina), conceitos libertários (Digno, Paz, Ego), o anticlericalismo (Ateo, Caín, Luzbel), a revolução (Comunardo, Espartaco, Alba de Revolución). O costume era universal, como demonstra o fato de que o anarquista estadunidense Johan Most pôs em seu filho Lucifer, o anjo que se rebelou contra Deus todo poderoso.

Em setembro de 1907 os companheiros Fabiana Silva e Manuel Gil, de Olivenza (Badajoz), inscreveram no registro civil dessa localidade a uma filha chamada Electra Felicidad, e na aldeia de Santo Domingo, junto a Olivenza, os companheiros Paula Souza e Antonio Jorge, inscreveram a sua filha Dalia Joven (Tierra y Libertad, 19 de setembro de 1907). Pouco antes, também em Santo Domingo, se inscreveu com os nomes de Palmira Progreso a filha de Casilda Jorge e Antonio Dordio (Tierra y Libertad, 18 de abril de 1907). Em Valdeobispo (Cáceres), Elisa Iglesias e Sotero Alcón haviam inscrito a seu filho Progreso Libertador, o qual, segundo informava o Tierra y Libertad de 21 de março de 1907, “tirou do eixo o elemento fanático de Valdeobispo, do que nos alegramos muito”.

Não somente os curas gritavam aos céus ante estes patronímicos. Em 18 de abril de 1907 se inscreveu civilmente em Carmona o filho de Diego Molina Carrasco, com o nome de Helenio Themis Carmona. Segundo consta na notícia dada no Tierra y Libertad de 18 de abril deste ano, “O encarregado do Registro, que deve ser um zaragozano excelente, disse que tais nomes não figuravam no almanaque… que ele conhecia. E como cada professor tem seu livrinho, nosso companheiro tirou o seu e conseguiu vencer a obstinação do que a todo custo não queria ler mais que em seu livro, o livro dos oráculos e das profecias”.

O ato de tais inscrições civis estava acompanhado de uma cerimônia libertária, que nada tinha que ver com os batismos. No Tierra y Libertad de 28 de fevereiro de 1907 se noticia a inscrição no registro civil de Badalona de “um belo e robusto menino dos companheiros Magdalena Miralles e Francisco Belis, com os nomes de Niabel, Darwin e Germinal”. Se relata que “uma numerosa concorrência acompanhou até o tribunal os pais e testemunhas e ao chegar ao domicílio dos citados companheiros se improvisou um comício (…) Ao ato que se organizou, que foi uma verdadeira manifestação, participou também uma música que foi proibida (se) tocasse pela rua, por ordem governativa. Não obstante os trabalhos de sapa para proibir o ato, não puderam consegui-lo”.

O filósofo argentino Christian Ferrer escreveu e publicou um divertido opúsculo de apenas quatro páginas (Así no hay matrimonio que aguante, Urania, 2016) onde divagava com a hipótese de que alguns anarquistas se uniram impulsionados por seus nomes, como Perseguido (homem) com Libertad (mulher), ou Siberiano (homem) com España Libre (mulher), casos reais da nomenclatura natalícia argentina.

Ferrer menciona, também, a outros anarquistas argentinos, como Benigno Mancebo, tipógrafo e minervista, presidiário em Tierra del Fuego, logo deportado e fuzilado. E a outro anarquista que sacramentou a toda sua prole com nomes de pedras preciosas: Turquesa, Ágata, Esmeralda, Rubí, Topacio, Zafiro, Amatista e Aguamarina, sem esquecer o varão: Ópalo.

O franquismo nacional catolicista acabou com tudo aquilo. Quando María Bruguera deixou seu filho aos cuidados de seus sogros em 1938, se chamava Floreal, o nome que ela e Francisco Torrado haviam escolhido. Quando voltou a encontrá-lo e a recuperá-lo em 1946, se chamava Francisco, como seu pai assassinado pelos fascistas em uma fazenda junto a Jerez dos Caballeros.

O Governo de Franco publicou no Boletim Oficial do Estado de segunda-feira, 13 de março de 1939, III Ano Triunfal, Nº 72 (apenas quando faltava um mês para a ocupação total do país), a Ordem de 8 de março de 1939 sobre inscrições de nascimento, matrimônios civis, mortes e anotações de divórcio e adoção em zona vermelha. Todo ato administrativo realizado em tempo da República ficava abolido e era obrigatório revisá-lo, desde títulos acadêmicos até inscrições de nascimento, por não falar das uniões civis e os divórcios.

O franquismo só reconhecia como matrimônio legítimo o canônico, e obrigava para toda inscrição apresentar a fé batismal e certificado de batismo, o qual voltava a supor garantidos negócios para a Igreja, além do controle sobre a sociedade. Não só os que tinham nomes anarquistas foram obrigados a renunciar a eles e mudá-los por outros do santoral, mas também todos aqueles nomes próprios catalães, bascos, galegos, etc.: os Iñakis e Jordis foram obrigados a ser Íñigos e Jorges. Um dos casos mais conhecidos é o do anarquista Ramón Acín, assassinado, cujas filhas Katia e Sol foram obrigadas a se chamar Ana María e María Sol.

Aquela imposição foi mais além do meramente nominativo. Quem se chamasse Libertad ou Liberto teve uma vida muito difícil durante o franquismo, suspeitosa ou suspeitoso de ser de esquerda, prescindível na hora de conseguir um emprego ou ter acesso a alguma ajuda administrativa. Até bem entrada a democracia e as mudanças no registro civil, não era estranho encontrar-se com o típico funcionário ou funcionária do registro que se negava a pôr determinados nomes, e inclusive quem desde seu poder como funcionário público dizia o que queria a quem solicitava nomear a seus filhos e filhas como lhe desse vontade. Ainda hoje, a norma sobre inscrição no registro civil proíbe utilizar determinados nomes, atribuindo-se o Estado a capacidade de julgar se são dignos ou não, tais como, por exemplo, a proibição de nomear os filhos com determinadas cifras: um, dois, três…, ainda que não tenha nada que objetar se se nomeia com Primeiro, Segundo ou Terceiro.

A muito poucos quilômetros de onde escrevo há uma escola libertária, Paideia. Uma de suas fundadoras, Pepita Martín Luengo, conheceu María Bruguera Pérez e soube de suas penúrias, colaborando na monografia que sobre ela se fez em janeiro de 1993, com um artigo que se intitulava “Un mundo de Anarquía”. Nem Pepita nem María estão ainda conosco, mas no pátio desse colégio e em suas atividades ressoa hoje em dia a gritaria de uns meninos e meninas cujos nomes são, ou foram, Tristán, Ander, Iris, Aitor, Gorka, África, Unatx, Olmo, Natalia, Maitane, Urko, Araith, Uxue, Marco, Helio, Ura… e um Antonio que, por sinal, é de ascendência asiática.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/memoria-historica/hijas-de-la-anarquia.-la-tradicion-de-los-nombres-libertarios?fbclid=IwAR0HZhAx4CCo15AgcJct2n1PIImc65QnLtoNexx-EXphsaKOe4LxXyZ0I78

Tradução > Sol de Abril

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de tantos instantes
para mim lembrança
as flores de cerejeira.

Matsuo Bashô

Vídeo | O Que é Raça?

Um olhar sobre o desenvolvimento histórico da raça, tanto como um sistema duradouro de relações de poder codificadas quanto como um pilar central para a criação e manutenção do poder estatal.

Tradução do vídeo What Is Race? da subMedia, versão original disponível em:

https://sub.media/video/what-is-race/

>> Veja o vídeo (07:02) aqui:

https://kolektiva.media/videos/watch/d644b3bb-31d3-457c-b6ff-cdeb1ce8b8bb

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em rincões e esquinas
frios cadáveres:
flores de ameixeira

Buson

[Espanha] A CGT inicia uma campanha para denunciar os vestígios do regime franquista ainda protegidos pelas instituições políticas e religiosas na democracia

A Confederação Geral do Trabalho (CGT), através da Comissão de Memória Libertária, anunciou uma campanha para denunciar, com documentação, a existência de restos do franquismo que gozam da proteção de instituições religiosas e políticas na atualidade.

Segundo a organização anarcossindicalista, esta campanha surge em um contexto derivado por causa da retirada da Cruz dos Caídos em Aguilar de la Frontera (Córdoba), onde gerou uma grande polêmica com opiniões a favor e contra de manter a cruz.

A CGT indica que é indubitável que a existência destas cruzes por todo o território do Estado espanhol cumprem a função de render homenagem às vítimas do bando sublevado, “os caídos por Deus e a pátria”, e discriminam ao resto de pessoas que o fizeram por defender a liberdade e combater o fascismo, rechaçando e parando o golpe de Estado de Franco.

Desde a CGT realizamos um chamado a toda a sociedade para que façam chegar testemunhos da preservação destes vestígios do passado, concretamente deste tipo de cruzes que costumam manter em todas as igrejas e lugares concretos de povoados e cidades, e recorda que o compromisso com a verdade, a justiça e a reparação da memória das vítimas é um trabalho em conjunto de toda a sociedade, sobretudo dos que se consideram antifascistas.

Gabinete de imprensa do Comitê Confederal da CGT

cgt.org.es

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sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda

Carlos Seabra

72 Dias – 150 Anos Da Comuna De Paris

72 Dias – Uma Experiência de Autogestão, é uma mostra artística que acontecerá entre 18 de março e 28 de maio, no Instagram.

Diariamente, durante setenta e dois dias, serão postados vídeos curtos que contarão a história da Comuna de Paris que este ano completa 150 anos.

O projeto 72 Dias também contará com um ciclo de palestras online e gratuito com especialistas no assunto.

Acesse https://www.instagram.com/72.dias/ para acompanhar a mostra e

 https://linktr.ee/72dias para reservar ingressos para as palestras e mais infos sobre o projeto.

Vive la Commune!

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Sempre do mesmo lado,
O dia todo e a noite inteira,
O vento da montanha.

Paulo Franchetti

[Portugal] Nova ofensiva turca sobre o Curdistão iraquiano

A noite passada (10/02), o estado fascista Turco lançou uma ofensiva sobre as montanhas de Gare, na região de Duhok, no Curdistão iraquiano.

O exército turco avançou com helicópteros e aviões de guerra e iniciou o bombardeamento aéreo da região pouco antes das 3h da manhã, durando até às 6h. Os invasores largaram depois soldados perto da aldeia de Siyanê e entraram em confrontos com as guerrilhas das Forças de Defesa do Povo (HPG), que ainda continuam.

As áreas atacadas fazem parte das Zonas de Defesa Medya, que são controladas pelas HPG, que estão associadas ao PKK, cuja presença incomoda tanto o regime turco como o regime do KDP de Barzani, ambos querendo esmagar a autonomia da região sob os princípios confederalistas democráticos.

Estes ataques, lançados desde sul, do Curdistão iraquiano, e não desde o Curdistão turco, a norte, só são possíveis devido à colaboração do KDP de Barzani, aliado a Erdoğan na sua luta imperialista.

É o momento de ação:

Ergamo-nos pela revolução!

Bijî Kurdistan!

#smashturkishfascism

Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão

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silenciosamente
uma aragem enfuna
as cortinas enluaradas

Rogério Martins

[Reino Unido] 100 anos depois, Kropotkin permanece surpreendentemente moderno

O centenário da morte de Kropotkin é um belo momento para retornar à pergunta que ele fez em Freedom (Liberdade) em 1886: o que devemos fazer? Ruth Kinna o considera um pensador cujo trabalho evoluiu através de uma era política e social em rápida mudança, mas que nunca perdeu sua humanidade e fé na possibilidade de uma mudança real.

As diferentes respostas de Kropotkin a essa pergunta foram informadas por suas variadas avaliações da situação política na Europa. Na década de 1870, ele descreveu tal situação como “revolucionária”. Dez anos depois, sua terminologia mudou: ele falava em processos evolutivos e ajuda mútua. No entanto, não é óbvio que essa mudança sinalizou uma grande redução de suas ambições políticas. A evolução ainda apontava para “a anarquia vindoura”, uma proposição revolucionária que residia na mente da maioria das pessoas.

Kropotkin costumava escrever sobre a transformação anarquista como se o copo estivesse meio cheio. Ele destacou as tendências sociais e econômicas que poderiam aumentar a confiança nesta mudança anarquista. Mas ele temperou seu “utopismo” com uma dose saudável de realismo. A maior parte dos dados que utilizou para mostrar a iminência da anarquia, de fato, também atesta a terrível saúde do sistema de mercados regulados pelo estado, caso continuasse a crescer sem obstáculos. A essência do pensamento de Kropotkin sobre a transformação social era que o potencial para a anarquia não era a mesma coisa que sua probabilidade.

Os contornos do futuro alternativo de Kropotkin são bem conhecidos. Para combater a urbanização e o desenvolvimento do agronegócio, ele previu a integração da agricultura e indústria e a criação do que os economistas agora chamam de “10-minute neighbourhoods (bairros de 10 minutos)”. Sua globalização alternativa priorizou o compartilhamento de informações sobre o comércio internacional e previu a federação descentralizada comunista como oposição ao monopólio governamental e ao conglomerado corporativo. O plano pode ter parecido especulativo, mas o objetivo de Kropotkin era aumentar os esforços organizacionais práticos e perturbar os arranjos socioeconômicos existentes.

Para Kropotkin, o fortalecimento do liberalismo era uma perspectiva desoladora. Ele antecipou que a internacionalização do laissez-faire prenderia os parceiros comerciais em uma competição por recursos escassos e vantagens econômicas. O livre comércio apontou para a militarização do sistema interestatal, investimento de capital na guerra e patrocínio governamental da produção industrializada de armas. Os padrões de troca desiguais e colonizadores que moldaram a atividade econômica em todo o mundo incentivariam simultaneamente a oposição à dominação europeia e estimulariam os movimentos migratórios das regiões mais pobres para as mais ricas. Essas pressões provavelmente se intensificariam à medida em que o processo de aquecimento global (que Kropotkin não vinculou à atividade humana) afetasse a produção e a distribuição. Mais cedo ou mais tarde, o liberalismo abraçaria a social-democracia. Uma vez que os liberais entrariam em contato com a ideia da marcha histórica do socialismo, a noção de luta de classes poderia ser facilmente neutralizada pelo assistencialismo. O socialismo de gás e água controlaria a lealdade dos trabalhadores.

As esperanças de Kropotkin sobre a anarquização da vida social e econômica foram frustradas e ele provou estar totalmente certo sobre os rumos do liberalismo. Ele advertiu que a democratização dos estados ocidentais diminuiria o apetite pelo internacionalismo ao longo das linhas propostas por ele e, em vez disso, aumentaria a rivalidade chauvinista e xenófoba. A democracia liberal implicou a profissionalização da política e a abdicação do poder de decisão para especialistas. Mas isso seria mal interpretado como uma tremenda redistribuição de poder e uma vitória para a classe trabalhadora. Cooptados pelas franquias, o povo seria soberano apenas no momento em que renunciasse à sua soberania individual. A igualdade criaria oportunidade e privilégio. Kropotkin previu as linhas gerais da socialização do liberalismo, embora não tenha vivido para ver as consequências: lares dignos de heróis, educação universal gratuita e serviços de saúde do berço ao túmulo. Os cidadãos buscariam toda proteção para manter suas vantagens contra “estrangeiros”. A ideia de que a sociedade poderia funcionar de forma cooperativa e independente do estado iria parecer fantástica.

O mundo de Kropotkin não era tão diferente daquele em que habitamos. É um equívoco consignar sua concepção de transformação social a um passado distante, onde as barreiras para a mudança anarquista eram menos formidáveis do que são agora. Algumas de suas prioridades imediatas – assim como resistir às seduções do governo representativo e do socialismo de estado – dependiam do apoio que os anarquistas pudessem obter para sua causa na época. Sua compreensão realista dificilmente diminui a força de sua crítica. Kropotkin pressentiu o possível eclipse do anarquismo na Europa e testemunhou o colapso de seus sonhos na Rússia. Apesar disso, ele continuou a promover a política anarquista até o fim. Como é bem sabido, ele acreditava que a anarquia sempre podia ser descoberta nos cantos e recantos do estado e sempre poderia ser recuperada como uma ordem social alternativa. A ajuda mútua foi um dos pilares de seu anarquismo. Ele também nos deu frutíferos conceitos de livre acordo, espírito de revolta e bem-estar para todos.

A ajuda mútua às vezes está ligada a um conjunto restrito de atividades. Mas Kropotkin não estabeleceu limites para os tipos de ação direta e não prescreveu quais empreendimentos as pessoas deveriam buscar, contanto que fossem movidos por considerações de justiça.

O que, então, devemos fazer? Kropotkin deu sua resposta: Ajam por si mesmos!

Fonte: https://freedomnews.org.uk/100-years-on-kropotkin-remains-strikingly-modern/

>> Ruth Kinna é coordenadora do Anarchism Research Group e co-edita seu jornal Anarchist Studies. Livros recentes da autora incluem The Government of No-one and Great Anarchists (O Governo de Ninguém e Grandes Anarquistas).

Tradução > A. Padalecki

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/09/02/reino-unido-lancamento-o-governo-de-ninguem-a-teoria-e-pratica-do-anarquismo-de-ruth-kinna/

agência de notícias anarquistas-ana

Nesta fria noite
Dorme no fundo do poço
A Lua encurvada.

Mary Leiko Fukai Terada

[Eslovênia] Chamada transnacional de Ljubljana para doações e apoio

Um vídeo da manifestação em 22 de janeiro de 2021 contra o despejo da Fábrica Autônoma ROG e uma chamada transnacional para doações e apoio.

Na terça-feira, 19 de janeiro de 2021, a Fábrica autônoma Rog (AT Rog) foi violentamente atacada e posteriormente destruída pelas forças conjuntas de neonazistas ligadas a empresas de segurança privada e a polícia. O ataque foi orquestrado pelo Município de Ljubljana. Sem qualquer aviso e sem qualquer base jurídica. Casas foram demolidas ou seriamente danificadas, muitos equipamentos, ferramentas e pertences pessoais roubados.

Fundada em 2006, a AT Rog foi um espaço social, cultural e político que rapidamente se tornou um dos maiores focos de trabalho social direto, rede solidária de imigrantes, pesquisa e ação política de base. Junto de muitas outras práticas, atendeu às necessidades do povo de Ljubljana. Ljubljana criou a AT Rog, porque havia uma necessidade para isso Seu vínculo autêntico com os moradores de Ljubljana é refletido no enorme fluxo de apoio de muitos indivíduos, iniciativas informais, instituições acadêmicas e tantos outros. Bem como em muitas doações recebidas e outros apoios oferecidos.

Durante o despejo violento e os protestos subsequentes nos quais milhares de pessoas desafiaram a proibição de todas as reuniões públicas devido à pandemia, muitas pessoas foram presas, multas foram dadas e alguns processos criminais foram abertos. Esperamos que os custos das multas só aumentem enquanto o Estado continua sua repressão e os custos dos processos legais se acumulam. Tudo isso será um fardo extra para a comunidade de AT Rog que também precisa lidar com as questões imediatas de moradia, equipamentos roubados e a reação política necessária.

PEDIMOS AO MOVIMENTO ANTIAUTORITÁRIO DE TODO O MUNDO QUE NOS APOIE NESSE MOMENTO DE NECESSIDADE E URGÊNCIA POR QUALQUER MEIO POSSÍVEL.

PEDIMOS ESPECIFICAMENTE DOAÇÕES PARA APOIAR OS INDIVÍDUOS, PEGOS NA REDE DE REPRESSÃO DO ESTADO. TODA CONTRIBUIÇÃO IMPORTA!

PayPal: solirog@riseup.net.

Mais informações: solirog@riseup.net

www.komunal.org

atrog.org

>> Vídeo (07:35) da manifestação em 22 de janeiro de 2021 contra o despejo da Fábrica Autônoma ROG:

https://www.youtube.com/watch?v=JMIRBSZTTqQ&feature=emb_title

Tradução > Brulego

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agência de notícias anarquistas-ana

folia na sala
no vaso com flores
três borboletas

Alonso Alvarez

[Espanha] La Cartuja de las Fuentes revela novos grafites da guerra civil

Aparecem novas marcas nas zonas onde se aquartelaram os milicianos. Os investigadores estão trabalhando na documentação dos restos descobertos

Na semana passada os milicianos da guerra civil que combateram na comarca dos Monegros lançaram de novo sua mensagem ao mundo. Após uma parede de cal na casa de obediências da Cartuja de las Fuentes descobriram novas inscrições gravadas na parede, ocultas por uma camada de cal. Sua iconografia mescla as siglas da CNT e da FAI junto ao perfil de uma capela. Uma descoberta que se soma aos numerosos vestígios catalogados previamente a estas tipologias. O enorme edifício religioso situado no limite municipal de Sariñena é o lugar no qual se encontram os restos mais conhecidos, mas em localidades como Tardienta, Alcubierre ou Torralba pode-se encontrar mensagens que sobreviveram aos meses mais convulsos dos anos 30 nas casas com mais soleiras.

Uma das pessoas que contribuíram de forma ativa nos últimos anos na recuperação destas inscrições é Alberto Lasheras. Ele foi o que descobriu estas últimas inscrições nas quais reflete o dia a dia do conflito armado. Ao trabalhar no interior do recinto teve que mostrar a muitas pessoas estas inscrições, inclusive a familiares dos soldados que deixaram sua assinatura. “O certo é que o tema dos grafitis e os anos da última guerra, despertam grande interesse entre os visitantes”, revela.

Desde 2018, e através de uma bolsa do Instituto de Estudos Altoaragoneses (IEA), se fez um profundo trabalho de investigação e documentação sobre estas pinturas, traços ou gravados que se encontram na Cartuja de las Fuentes. Conforme se avança nos trabalhos de restauração deste conjunto monacal, se descobrem novas inscrições e desenhos das tropas que o ocuparam durante a guerra civil. No entanto, sua conservação não está garantida. Não se pode esquecer que muitas destas inscrições se encontram sobre uma camada de cal que cobre as pinturas de Bayeu, assim que serão os restauradores encarregados dos trabalhos os que decidem se se conservam ou se documentam e se destroem para deixar visíveis as pinturas originais.

A comarca dos Monegros também conta com grafites deste tipo em outro tipo de edificações. Algumas estão em mãos de particulares e serão os proprietários das moradias onde ficaram estes restos de memória os que decidirão sobre sua conservação. É o caso de Torralba de Aragón. Na localidade, segundo destaca o jornalista Víctor Pardo se habilitarão vários casarões como hospitais de sangue, incluído o edifício das escolas. Na última planta de uma central e enorme moradia que acolheu feridos e convalescentes se conservou este mural de grande tamanho, além de um bom número de inscrições alusivas à situação pessoal ou procedência dos combatentes. “Cada gota de vuestra sangre é hoy uma semilla; mañana uma flor de libertad”, escreveu sobre a parede, em rotundas letras maiúsculas, um miliciano da FAI.

Qualidade artística

 Lasheras tem documentadas mostras similares em edifícios de relevância de Alcubierre. Destacam-se as de casa Ruata, um palácio coletivizado que foi usado como sede da CNT e no qual se instalaram as forças enviadas desde a Catalunha. Suas figuras tem “certa qualidade artística” e refletem a dureza daqueles anos de levantamentos e entusiasmo popular.

Contudo, os restos da guerra civil na cartuja monegrina são só uma parte minúscula do patrimônio que um visitante pode desfrutar em seu interior. A Assembleia Provincial de Huesca adquiriu o edifício em junho de 2015. Desde então a instituição investiu mais de um milhão e meio de euros em diferentes atuações, tanto para a reabilitação de parte das instalações como em trabalhos de renovação de estadias e limpeza do recinto ou a aquisição de elementos que em seu dia fizeram parte do conjunto e que foram vendidos, como o Libro de Actas ou, mais recentemente, o esboço de Fray Manuel Bayeu La adoración de los pastores.

Enquanto a igreja, situada no recinto e edifício principal do mesmo, a DPH receberá nas próximas semanas as obras de restauração do átrio e está a ponto de licitar os trabalhos de recuperação das pinturas situadas nas abóbadas da igreja. Brevemente se licitarão também as obras para a reabilitação do edifício das portarias, que se converterão em um centro de acolhida para os milhares de visitantes que a cada ano chegam até a Cartuja para conhecer suas instalações, história e rico patrimônio histórico e artístico. Chamam a atenção inscrições sobre as obras sacras como o No pasarán de um miliciano, observada este mês pela primeira vez no claustro ou a anticlerical reflexão que outro soldado deixou nas capelas: La religión es la muleta de los estúpidos y los ignorantes.

O interesse que produzem estas pinturas se mantêm no presente. Os próprios guias se encarregaram de localizar os familiares daquelas pessoas que assinaram com nomes e sobrenomes. A emoção que sentem quando podem visitá-las é enorme, reconhecer Lashera.

Mudança na frente

Finalmente, as esperanças daqueles homens que desenharam aviões, soldados e documentaram a rotina da frente nas paredes de um território em guerra se desvaneceram. Ao romper a frente da serra de Alcubierre em março de 1938, os republicanos abandonaram o monastério e desmantelaram as coletividades nas quais haviam investido tantos esforços, ficando todo o território ocupado pelas tropas franquistas.

Ainda que possa parecer o contrário, esta situação não salvou os muros dos edifícios religiosos de servir como tela para os militares. Lasheras explica que o coronel Eduardo González-Gallarzalo utilizou como quartel general da esquadra de caças-bombardeiros Junquer 52, que operavam desde os aeródromos próximos. Aproveitou as paredes para marcar a distribuição de suas unidades. E ai fica sua presença.

Fonte: https://www.elperiodicodearagon.com/noticias/aragon/cartuja-fuentes-revela-nuevos-grafitos-guerra-civil_1455170.html

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

no calor da sesta
imóvel, o gato vigia
o vôo da vespa

Jorge Lescano

[Espanha] Madrid: Desalojo postos Tirso de Molina

Este domingo 7 de fevereiro, agentes da polícia municipal voltaram a desalojar os postos políticos de Tirso de Molina com a desculpa de carecer de licença. Desde 22 de novembro nos postos estivemos montando nossas mesas sem sermos incomodados pelas autoridades e evidentemente sem autorização, como se vem fazendo faz 40 anos. O único posto que não foi desalojado é o da CNT/AIT, que tem permissão para instalar dois postos em Tirso de Molina e La Latina em virtude de uma sentença judicial derivada da tentativa de desalojo dos postos em 1992.

Não nos surpreendeu esta mudança de atitude por parte das autoridades após quase três meses montando os postos. Não parece ser devido à situação de emergência sanitária pois nada nos disseram a respeito, então pensamos que novamente é um ataque contra o espaço da praça, contra as ideias que ali se difundem.

Até as 14 horas várias dezenas de pessoas realizaram um protesto espontâneo contra o desalojo dos postos, cantando lemas e distribuindo panfletos pelas ruas de Duque de Alba, plaza de Cascorro e Ribera de Curtidores, para lembrar à municipalidade a origem dos postos políticos e para demonstrar-lhes que vamos responder a sua repressão com a força da solidariedade e da mobilização.

Como já dissemos no último comunicado permanecemos alerta e organizados, e os convocamos para ir no próximo domingo a Tirso às 11 h para dizer ao prefeito que

Os postos de Tirso ficam!

puestostirso.noblogs.org

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agência de notícias anarquistas-ana

amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa

Alice Ruiz

Fábricas, Campos e Armas: Uma Síntese da História da CNT com Chris Ealham

Existem muitos mitos e fantasias sobre a CNT e sua história pré-Guerra Civil Espanhola. Sobretudo quando se anula o contexto e as condições sócio-econômicas que a população de Espanha em geral, e de Barcelona em particular, viviam e sofriam. A CNT não era apenas um sindicato ou um anarco-sindicato interessado na agitação permanente e guiado exclusivamente pela ideia de revolução social à luz das ideias anarquistas. Era sobretudo uma casa que para além do sindicalismo de base nos locais de trabalho, procurava ser uma rede de sobrevivência, tanto física como mental. O dia a dia era tão importante quanto o futuro.

Não estava apenas ligada aos locais de trabalho, mas também as comunidades e aos bairros. Por isso, não era só um sindicato de trabalhadores, mas também de desempregados, miúdos de rua, imigrantes e inválidos. Ninguém ficava excluído e a solidariedade alimentava o espírito dessa multidão precária.

A importância do trabalho de Chris Ealham em Anarchism And The City (AK Press, 2010), ao destapar essa cultura cenetista, leva a que se traduza esta entrevista(1), importante para um melhor entendimento do que foi CNT de 1910 até 1937.

O que se segue é uma breve história da Confederacion Nacional del Trabajo (CNT), um sindicato revolucionário activo em Espanha. Esta entrevista foi conduzida por Jessica Thorne em conjunto com Chris Ealham. Chris é um historiador e autor de Anarchism And The City: Revolution and Counter-Revolution in Barcelona, 1898-1937 (2010) e Living Anarchism: Jose Peirats And The Spanish Anarcho-Syndicalist Movement (2015). O que é esperado por ambos, entrevistadora e entrevistado, é que se possa dar aos leitores uma introdução significativa para um importante período histórico de um sindicato de base combativo.

Sucintamente, como é que a CNT tomou corpo?

Foi criada em Barcelona em 1910 – a cidade já tinha assistido a greves gerais em 1902 e 1909 e havia uma consciência de que era necessária uma nova e mais extensa forma de organização de classe. Uma pista para as futuras prioridades da CNT pode ser encontrada nessas duas greves gerais: a primeira visava conseguir 9 horas diárias de trabalho, enquanto a segunda foi uma mobilização anti-guerra, contra a mobilização obrigatória, fardo que caiu sobre os trabalhadores. A CNT combinava sempre as suas funções de base sindical com uma preocupação com as restantes necessidades políticas da comunidade de trabalhadores.

Apesar da CNT ser entendida como uma organização “anarquista” ou “anarco-sindicalista”, ela foi criada com o intuito de ser um sindicato de luta, uma força combativa desenhada para atingir ganhos imediatos e, também, simultaneamente, acabaria por ser um veículo para uma mudança revolucionária. Se fossemos colocar uma etiqueta na CNT à sua nascença, seria mais correto designá-la como sindicalista revolucionária – foi estabelecida por diversos grupos de anarquistas, republicanos, socialistas, anarco-sindicalistas. Penso que esta sinergia foi vital para a sua força inicial – era capaz de ser apelativa aos trabalhadores e explorados para além das suas posições políticas específicas.

Desde o início, a CNT lançou-se numa série bastante violenta de ações industriais. Historicamente, os patrões Catalães tinham reprimido e rejeitado até os sindicatos mais moderados, e assim a CNT optou desde o primeiro momento pelos métodos da ação direta – havia um sentimento comum entre os trabalhadores que nada podia ser obtido através de moderação.

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agência de notícias anarquistas-ana

tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis

Rosa Clement