Pré-venda: Apoio Mútuo, de Piotr Kropotkin

O livro Apoio Mútuo: um fator de evolução foi publicado originalmente em 1902, na Inglaterra, durante o exílio de Kropotkin. Apesar de ter sido traduzido e publicado nos quatro cantos do mundo, não contou, até pouco tempo atrás, com uma edição em português. Tal feito só ocorreu em 2009 quando A Senhora Editora publicou a primeira edição digital. Foi em 2012, nos 110 anos da primeira edição, que A Senhora Editora somou esforços com a Editora Deriva para a primeira edição impressa do livro.

Esta nova edição publicada pela Biblioteca Terra Livre foi revisada e a ela acrescentamos o texto Apoio Mútuo: Um fator iluminado de evolução, de Andrej Grubacic & David Graeber que compõe a edição da PM Press, além do obituário de Darwin escrito por Kropotkin e publicado na edição da Pepitas de Calabaza.

Com este livro damos continuidade ao esforço global de difusão das produções teóricas deste que foi um dos mais destacados anarquistas da história.

Para auxiliar nos custos de gráfica, a pré-venda do livro com 20% DE DESCONTO (de R$45 por R$36) até o dia 2 de outubro de 2021 e a previsão é que o envio se inicie a partir de 4 de outubro.

O livro pode ser adquirido das seguintes formas:

1) Através do PagSeguro: https://pag.ae/7XwPCzHG3

2) Na loja da Livraria Terra Livre com o uso do cupom KROPOTKIN, onde temos nosso catálogo completo: https://livrariaterralivre.minhalojanouol.com.br/produto/224333/pre-venda-apoio-mutuo

3) Via PIX:

Chave: bibliotecaterralivre@gmail.com

Não esqueça de acrescentar o valor do frete (R$8 – oito reais) na compra. O total fica do livro na pré-venda mais o frete fica R$44 (quarenta e quatro reais).

IMPORTANTE! Não esqueça de enviar por email o comprovante e o endereço para envio!

Ficha técnica:

Título: APOIO MÚTUO: UM FATOR DE EVOLUÇÃO

Autor: PIOTR KROPOTKIN

Editora: BIBLIOTECA TERRA LIVRE

Idioma: português

Encadernação: Brochura

Dimensão: 21 x 14 cm

Edição: 1ª

Ano de Lançamento: Outubro de 2021

Número de páginas: 376

Preço: R$ 45,00

Mais informações sobre o livro em: https://bibliotecaterralivre.noblogs.org/pre-venda-apoio-mutuo-um-fator-de-evolucao/

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a borboleta
pousa sobre o sino do templo
adormecido

Buson

[Espanha] Acampamento Libertário para a Ocupação de Espaços Autogeridos

CAMPO DE CONVIVÊNCIA LIBERTÁRIA, 17 A 26 DE SETEMBRO

Porque juntos nos sentimos fortes, grandes e queremos ser livres e rebeldes.

Acreditamos que podemos fazer uma realidade diferente onde todos vivem à vontade e não temos medo de ser o mínimo, aqueles que não cumprem as regras, porque sentimos que somos mais e que a união nos fortalece, desde o C.S.O.A. La Algarroba Negra, em Badajoz, o convidamos a compartilhar uma convivência livre e autogerida no CAMPO DE CONVIVÊNCIA LIBERTÁRIA, de 17 a 26 de setembro.

Convidamos todos aqueles que sentem que juntos podemos fortalecer as ideias de vida livre, a reivindicação da okupação não apenas como moradia, mas como centro social, espaços onde podemos praticar a criação de outro mundo, um mundo onde tudo é para todos, espaços para encontrar, compartilhar, debater, sonhar e, sobretudo, viver, para criar esse espaço onde podemos desenvolver estratégias em grupos e lutar pela igualdade.

Você já se perguntou sobre a “violência passiva” à qual nos submetemos de forma autônoma quando deixamos de experimentar recursos para a criação do mundo onde gostaríamos de estar?

Estamos no presente e esperamos que esta convivência em La Algarroba Negra seja um impulso para todos nós no sentido da transformação para um mundo melhor, mais justo e equitativo, onde os valores da justiça social venham antes do individualismo da propriedade privada.

A okupação de espaços abandonados para dar origem a espaços sociais coletivos ou para dar abrigo a indivíduos é um ato legítimo diante da necessidade de espaços e recursos para que possamos viver e nos desenvolver e diante da infinidade de espaços, materiais e recursos desperdiçados pelo sistema capitalista que gera desigualdade e desperdício para onde quer que vá.

Não faz sentido criminalizar e deixar sem esses espaços pessoas que têm necessidades e dar preferência a entidades privadas, neste caso a Sareb com a intenção de especular, murar e deixar abandonados, espaços que poderiam ter um uso social.

Do centro social okupado e autogerido onde estamos, acreditamos que não há razões legítimas para obedecer a um governo e suas leis injustas, nossa consciência nos ordena primeiro a sermos livres e responsáveis, não sujeitos.

Uma propriedade ocupada, propriedade da Sareb (Sociedade de ativos da reestruturação bancária, fundos de ativos tóxicos financiados pelo Estado que detém 45,9% e por bancos privados, companhias de seguros, imóveis e eletricidade, têm mais de 50.000 propriedades com as quais obtêm grandes benefícios econômicos e são amplamente responsáveis pela situação econômico-político-social atual e futura, e, me diga você, como acha que será?).

Em Badajoz no C.S.O.A. La Algarroba Negra decidimos acompanhar os camaradas que usam o espaço aleatoriamente acusados de usurpação, okupamos o nosso tempo, okupamos o C.S.O.A. para realizar algo em que acreditamos, uma coexistência libertária, autogerida e solidária.

O objetivo do acampamento é recuperar o uso de espaços autônomos e autogeridos, promover relações intergeracionais e igualitárias e gerar interações sociais a nível local e peninsular.

>> Mais informações: https://www.algranoextremadura.org/csoa-la-algarroba-negra/acampada-libertaria

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/17/espanha-perigo-iminente-de-despejo-do-csoa-la-algarroba-negra-em-badajoz/

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o rio ondulando
a figueira frondosa
no espelho da água.

Alaor Chaves

Colóquio Internacional: 120 Anos da Escola Moderna de Barcelona

26 a 29 de Outubro de 2021 | Universidade Estadual do Paraná (Unespar) – Campus Apucarana-PR, Brasil

Evento Gratuito e Online com transmissão ao vivo por canal no Youtube e Facebook.

Sobre o Colóquio

O presente Colóquio é uma continuidade dos trabalhos da Biblioteca Terra Livre em parceria com Universidades Públicas para difundir a história da educação libertária e do pensamento anarquista. Em 2012, foi organizado o Colóquio Internacional “Educação Libertária: 100 anos da Escola Moderna de São Paulo” (coloquioeducacaolibertaria.wordpress.com), realizado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
No ano em que rememoramos os 120 anos da fundação da Escola Moderna de Barcelona, pretendemos com a organização de um Colóquio Internacional reunir pesquisadores e interessados no tema da história da Escola Moderna e da difusão do racionalismo pedagógico ao redor do mundo. Um dos objetivos centrais é criar um espaço de construção coletiva de conhecimento e divulgação científica, além de proporcionar a reflexão sobre as inovações pedagógicas propostas por Francisco Ferrer y Guardia e a rede de educadoras/es, cientistas e militantes envolvidas/os diretamente no projeto da Escola Moderna. Por fim, será a oportunidade de socialização dos resultados do Projeto de Pesquisa e do Grupo de Estudos sobre a Escola Moderna no Brasil (1890-1930) coordenado pelo Prof. Dr. Rodrigo Rosa da Silva (Unespar-Apucarana).

>> Mais infos: coloquioescolamoderna2021.wordpress.com

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/30/espanha-i-simposio-internacional-ferrer-guardia/

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este papel de parede
ou ele se vai
ou eu me vou

Oscar Wilde

[França] A Livraria Libertária La Niche

A p r e s e n t a ç ã o

La Niche é uma livraria associativa itinerante fundada em 2005 por um grupo de amigos e amigas motivados pela disseminação do pensamento libertário. Opera em um modelo de autogestão e antiautoritário. A associação é autogestionária, ou seja, os membros que participam concretamente no seu funcionamento estarão todos em pé de igualdade, assim como qualquer tomada de decisão será feita em igualdade de condições entre esses membros.

Preocupada com a nossa independência política e com a autonomia dos movimentos, La Niche se pretende um lugar de convergência apoiando vários coletivos em luta, acolhendo e divulgando as suas várias reivindicações. Recusando-se a ser um “santuário” dedicado aos livros, espera assim conjugar reflexões e práticas. Queremos divulgar as ideias dos vários movimentos anarquistas em torno de um lugar fixo, mas também de forma itinerante. Queremos divulgar a história e as notícias dos movimentos críticos que lutam contra o sistema capitalista, para além dos aparatos políticos e de qualquer outro tipo de organização institucionalizada. Trata-se sobretudo de se opor a todas as formas de dominação e de lutar contra tudo o que a justifica e legitima.

librairielaniche.wordpress.com

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/09/03/franca-a-livraria-do-lirio-do-vale/

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No jardim da vida,
imagino o paraíso
de cores e flores.

Sandra Hiraga

Repressão na Bielorrússia em agosto de 2021

 Já se passou mais de um ano desde o início dos protestos na Bielorrússia, causados por eleições falsas. Muitos de nossos camaradas foram colocados atrás das grades, muitos tiveram que fugir do país, a atividade pública é prejudicada não apenas para os anarquistas, mas para todas as associações e grupos dissidentes. Abaixo você verá uma breve atualização sobre a situação com as repressões na Bielorrússia, com foco nos anarquistas e antifascistas. Tentaremos lançar essas atualizações no final de cada mês.

 Repressão contra anarquistas e antifascistas

Mais quatro anarquistas foram presos por acusações criminais de participação nos protestos de agosto-setembro do ano passado. Aleksandr Belov e Evgeny Rubashko foram detidos em 29 de julho e colocados sob custódia nos 10 dias seguintes. Eles foram espancados para extorquir confissões e senhas para seus dispositivos. O colega de apartamento de Evgeny foi preso por 14 dias por obstrução e mais tarde deportado da Bielorrússia com uma proibição de entrada de 7 anos.

Dois anarquistas com o mesmo nome – Artiom Solovey – foram detidos em 4 de agosto. Ambos foram posteriormente acusados de violação grosseira da ordem pública durante protestos.

Nos dias 4 e 11 de agosto, a polícia revistou mais de 10 apartamentos e deteve 9 ativistas que foram presos por obstrução e passaram por uma detenção de 10 a 15 dias. Um deles, Ilya Senko, foi preso novamente por mais 15 dias por se recusar a testemunhar contra si mesmo. Sua casa foi revistada duas vezes este mês. Em 3 de setembro ele foi solto.

O antifascista de Brest Denis Zhuk foi condenado a quatro anos de prisão por participação em motins em massa.

Os anarquistas também são pressionados na prisão. Mikita Yemelyanau e Artiom Solovey foram colocados em uma cela de punição por 7 dias. O antifascista Igor Bancer  já passou 30 dias na segregação administrativa. Todos eles têm um distintivo especial dizendo que são propensos ao extremismo, portanto, mais atenção dos guardas. Os antifascistas Timur e Tamaz Pipiyas  relataram ausência total de cartas após o veredicto.

Os partidários anarquistas Ihar Alinevich, Dzmitry Dubouski, Dzmitry Rezanovich, Sergey Romanov foram apresentados às acusações finais e começaram a examinar os arquivos do caso. As acusações são desconhecidas devido à declaração de sigilo dos advogados. O julgamento é esperado em alguns meses.

ABC-Bielorrússia apoia anarquistas e antifascistas que sofrem com a perseguição. Você pode doar usando os detalhes de transferência nesta página https://abc-belarus.org/?page_id=8661&lang=en

Repressão em geral

Em agosto, o Estado finalizou a repressão contra a mídia independente, defensores dos direitos humanos e ONGs. Agora todas as ONGs foram fechadas ou estão em processo de fechamento.

Nossa lista de manifestantes presos e perseguidos chega a mais de 1000 pessoas. O maior escândalo agora são as autoridades bielorrussas trazendo iraquianos e outros imigrantes para o país e apoiando-os na travessia das fronteiras europeias. É por isso que a Lituânia, a Letônia e a Polônia começaram a construir uma cerca de arame ao longo da fronteira. Alguns migrantes estão presos na zona neutra, com guardas de fronteira europeus e bielorrussos não permitindo que eles entrem em nenhum dos lados.

Há relatos de que a tortura é usada em centros de detenção temporária onde são detidos administrativamente – as pessoas não recebem lençóis ou colchões, são privadas de sono e envenenadas com cloro que é colocado no chão. Eles não recebem nenhuma cota de comida de fora.

Pessoas que são enviadas para cumprir suas penas denunciam maus tratos e punições. Os advogados não podem ver seus clientes por semanas, parentes estão preocupados. Quando os condenados tentam apelar, suas sentenças às vezes se tornam mais severas.

Os julgamentos de políticos importantes e “perigosos para o regime” são fechados ao público. Vários presos políticos foram libertados este mês após assinarem a petição de perdão.

Pessoas que trabalham para empresas estatais relatam demissões em massa daqueles que participaram dos protestos de qualquer forma. Famílias com histórico de protestos estão sujeitas a inspeções de controle infantil.

136 pessoas foram condenadas por acusações políticas somente em agosto.

O que acontece com o protesto?

Em geral, a maioria das pessoas agora tem medo de fazer protestos de rua, então, principalmente, a atividade se limita a ações simbólicas menores nos bairros. Ao mesmo tempo, muito trabalho é dedicado à pressão internacional sobre o regime, como cancelamento de eventos esportivos, banimento da Bielorrússia da Eurovision, pressão sobre as empresas para que não cooperem com o regime. Equipes especiais estão trabalhando em colaboração com funcionários públicos de diferentes instituições que desejam mudanças, ou tentando unir todos os trabalhadores e prepará-los para uma greve nacional.

A oposição anunciou um Plano de Vitória que envolve pessoas que não apoiam o regime se registrem como manifestantes prontos para agir e fornecer detalhes sobre sua ocupação, etc. Os iniciadores esperam obter um grupo de pessoas de todas as esferas da vida para, mais tarde, formar grupos de afinidade com base em locais de trabalho ou habilidades comuns.

Um grupo chamado CyberPartisans reivindicou alguns ataques de hackers a e-mails oficiais, sites e servidores de agências governamentais. Eles vazaram informações pessoais de policiais e agentes da KGB, gravações de vídeo de centros de detenção, etc.

ABC-Bielorrússia apoia anarquistas e antifascistas que sofrem com a perseguição. Você pode doar usando os detalhes de transferência nesta página https://abc-belarus.org/?page_id=8661&lang=en

Fonte: https://abc-belarus.org/?p=14318&lang=en

Tradução > Da Vinci

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/27/servicos-especiais-da-ucrania-ajudam-o-regime-de-lukashenko-a-reprimir-anarquistas-na-bielorrussia/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/23/bielorrussia-antifascista-detido-e-condenado-a-servir-18-meses-de-trabalho-forcado-por-uma-performance-de-rua/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/15/atualizacao-da-situacao-das-repressoes-na-bielorrussia-em-junho-de-2021/

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As cebolinhas
Lavadas e tão brancas —
Que frio!

Bashô

[Chile] Mini-documentário: “Las voces del trueno”

Documentário 100% gravado em Talcahuano, representa a invasão da indústria metalúrgica e pesqueira frente à resignificação dos símbolos territoriais e geográficos. Está narrada em imagens que constatam o grave crime que se cometeu contra a natureza, produzido pela super exploração dos ecossistemas rurais e urbanos, onde a terra está manifestando-se lentamente a passagem do fluxo, que fará desaparecermos logo da superfície. Cabe assinalar que o nome “Las voces del trueno” é pelo nome em mapudungun da comuna Tralkawenu, cujo significado é “cielo tronador”, ou “cielo de truenos”, onde se gera o eletrochoque de reinício à nova consciência e paradigma, à qual abrimos passagem inevitavelmente.

É um projeto experimental, de caráter político e etnográfico. Foi estreado em setembro, antes da revolta de outubro do ano 2019 no $hile, país envolto no crime ambiental, em suas 16 regiões.

>> Veja o mini-documentário (09:00) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=RJXI2ui1uRw

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o futuro do presente
repousa em movimento
no teu ventre

Eliakin Rufino

David Graeber: Por que há tão poucos anarquistas na academia?

Esta é uma questão pertinente, uma vez que hoje o anarquismo como filosofia política está em seu apogeu. Os movimentos anarquistas ou de inspiração anarquista estão crescendo em toda parte; os princípios anarquistas tradicionais – autonomia, associação voluntária, auto-organização, ajuda mútua, democracia direta – podem ser encontrados tanto nos fundamentos organizacionais do movimento de globalização quanto em uma grande variedade de movimentos radicais em qualquer parte do mundo. Revolucionários no México, Argentina, Índia e em outros lugares têm abandonado cada vez mais os discursos que defendem a tomada do poder e começaram a formular ideias diferentes sobre o que a revolução poderia significar. É verdade, a maioria ainda usa timidamente a palavra “anarquista”, mas como Bárbara Epstein recentemente assinalou, o anarquismo já ocupou mais do que o lugar que o marxismo ocupava nos movimentos sociais dos anos 60. Mesmo aqueles que não se consideram anarquistas são forçados a se definir em relação a ela e se inspirar em suas ideias.

Entretanto, isto dificilmente se reflete nas universidades. A maioria dos acadêmicos muitas vezes tem uma ideia muito vaga do que é o anarquismo, ou o rejeitam com os estereótipos mais grosseiros. (“Organização anarquista! Isso não é um contrassenso?”) Nos EUA há milhares de acadêmicos marxistas de uma ou outra escola, mas apenas uma dúzia de professores dispostos a se chamarem anarquistas.

É uma questão de tempo? Isso é possível. Talvez dentro de alguns anos as universidades estejam transbordando de anarquistas, mas eu não tenho grandes esperanças. O marxismo parece ter uma afinidade com a universidade que o anarquismo nunca terá. Afinal, é o único grande movimento social inventado por um acadêmico, mesmo que mais tarde tenha se tornado um movimento pela união da classe trabalhadora. A maioria dos ensaios sobre a história do anarquismo afirma que suas origens foram semelhantes às do marxismo: o anarquismo é apresentado como uma criação de certos pensadores do século XIX – Proudhon, Bakunin, Kropotkin, etc. – O anarquismo, nos relatos mais comuns, é frequentemente apresentado como o parente pobre do marxismo, teoricamente um pouco coxo, que é compensado, no entanto, no plano ideológico, por sua paixão e sinceridade. Mas na verdade, a analogia é, na melhor das hipóteses, forçada. Os “pais fundadores” do século XIX nunca pensaram que tivessem inventado algo particularmente novo. Os princípios básicos do anarquismo – auto-organização, associação voluntária, ajuda mútua – referem-se a formas de comportamento humano que foram consideradas como parte da humanidade desde o seu início. O mesmo pode ser dito de sua rejeição do Estado e de todas as formas de violência estrutural, desigualdade ou dominação (anarquismo significa, literalmente, “sem governantes”), e também do reconhecimento de que todas essas formas estão, até certo ponto, relacionadas e se reforçam umas às outras. Estas ideias nunca foram apresentadas como o germe de uma nova doutrina. E na verdade, não foram: pode-se encontrar registros de pessoas fazendo tais argumentos ao longo da história, embora todas as evidências sugiram que, em quase todos os momentos e em quase todos os lugares, estes pontos de vista raramente foram expressos por escrito. Referimo-nos, portanto, menos a um corpo de teoria do que a uma atitude ou até mesmo a uma fé: a rejeição de certos tipos de relações sociais, a confiança de que outros serão muito melhores na construção de uma sociedade habitável, a crença de que tal sociedade poderia realmente existir.

Se compararmos também as escolas históricas do marxismo e do anarquismo, vemos que são projetos fundamentalmente diferentes. As escolas marxistas têm autores. Assim como o marxismo surgiu da mente de Marx, também temos leninistas, maoístas, trotskistas, gramscianos, althusserianos… (Note que a lista é encabeçada por chefes de estado e gradualmente desce até os professores franceses). Pierre Bourdieu observou uma vez que se o mundo acadêmico fosse como um jogo em que os especialistas lutam pelo poder, saber-se-ia que se ganhou quando esses mesmos especialistas começaram a como criar um adjetivo a partir de seu nome. É precisamente para preservar a possibilidade de vencer este jogo que os intelectuais insistem em continuar usando em suas discussões teorias de história do tipo “Grande Homem”, que sem dúvida escarneceriam em qualquer outro contexto. As ideias de Foucault, como as de Trotsky, nunca são tratadas como um produto direto de um determinado meio intelectual, resultado de conversas e discussões intermináveis envolvendo centenas de pessoas, mas como o produto do gênio de um único indivíduo ou, muito ocasionalmente, de uma mulher. Também não é o caso que a política marxista tenha sido organizada como uma disciplina acadêmica ou que ela se tenha tornado um modelo para medir, cada vez mais, o grau de radicalismo dos intelectuais.

Na realidade, ambos os processos se desenvolveram em paralelo. Da perspectiva da academia, isto produziu resultados satisfatórios – o sentimento de que deve haver algum princípio moral, que as preocupações acadêmicas devem ser relevantes para a vida das pessoas – mas também desastrosos: transformou muito debate intelectual em uma paródia de política sectária, na qual todos se esforçam para caricaturar os argumentos uns dos outros não apenas para mostrar o quanto estão errados, mas sobretudo o quanto malévolos e perigosos eles podem ser. E tudo isso quando as discussões que são levantadas usam uma linguagem tão hermética que somente aqueles que foram capazes de pagar sete anos de educação superior poderão ter acesso a elas.

Consideremos agora as diferentes escolas do anarquismo. Há anarco-sindicalistas, anarco-comunistas, insurrecionais, cooperativistas, individualistas, plataformistas… Nenhum deles deve seu nome a um Grande Pensador; pelo contrário, todos eles recebem o nome de algum tipo de prática ou, mais frequentemente, de princípio organizacional. (Significativamente, as correntes marxistas que não recebem o nome de pensadores, tais como a autonomia ou o comunismo conselhista, são as mais próximas do anarquismo). Os anarquistas gostam de se destacar por sua prática e como eles se organizam para realizá-la e, de fato, têm dedicado a maior parte de seu tempo a pensar e discutir exatamente isso. Os anarquistas nunca estiveram muito interessados nas questões estratégicas e filosóficas que historicamente têm preocupado os marxistas. Assim, os anarquistas consideram questões como “Os camponeses são uma classe potencialmente revolucionária?” para que sejam os próprios camponeses a decidir. Qual é a natureza da forma da mercadoria? Em vez disso, eles discutem sobre qual é a forma verdadeiramente democrática de organizar uma assembleia e em que ponto a organização deixa de ser enriquecedora e restringe a liberdade individual. Ou sobre qual ética deve prevalecer em oposição ao poder: o que é ação direta, é necessário (ou certo) condenar publicamente alguém que assassina um chefe de Estado, ou pode o assassinato ser considerado um ato moral, especialmente quando impede algo terrível, como uma guerra? Ou quando é certo apedrejar uma janela?

Em resumo:

  1. O marxismo tende a ser um discurso teórico ou analítico sobre estratégia revolucionária.
  2. O anarquismo tende a ser um discurso ético sobre a prática revolucionária.

Obviamente, tudo o que eu disse até agora é um pouco caricatural (tem havido grupos anarquistas muito sectários e muitos marxistas libertários, incluindo possivelmente eu mesmo, que têm sido a favor da prática). De qualquer forma, como já assinalei, isto implica uma grande complementaridade potencial entre os dois. E, de fato, houve: Mikhail Bakunin, além de discutir com Marx sobre questões práticas em inúmeras ocasiões, também traduziu pessoalmente o capital para o russo. Mas também torna mais fácil entender por que há tão poucos anarquistas na academia. Não é simplesmente que o anarquismo não emprega uma teoria sublime, mas que suas preocupações se limitam acima de tudo às formas de prática; ele insiste, antes de tudo, que os meios devem estar de acordo com os fins; a liberdade não pode ser gerada por meios autoritários. Na verdade, na medida do possível, deve-se antecipar a sociedade que se deseja criar nas relações com amigos e companheiros. Isto não se encaixa muito bem com o trabalho na universidade, talvez a única outra instituição ocidental além da Igreja Católica e da monarquia britânica que permaneceu inalterada desde a Idade Média, promovendo debates intelectuais em hotéis de luxo e até mesmo fingindo que tudo isso encoraja a revolução. No mínimo, um professor abertamente anarquista poderia questionar como funcionam as universidades – não pretendo aqui solicitar um departamento de estudos anarquistas – e isso, é claro, lhe traria muito mais complicações do que qualquer coisa que pudesse escrever.

David Graeber

Fonte: https://lapeste.org/2019/06/david-graeber-por-que-hay-tan-pocos-anarquistas-en-la-academia/

Tradução > Liberto

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a estrela d’alva se tirou
jamais clareava
negras árvores nos azulados

Guimarães Rosa

100 anos da lei de repressão ao anarquismo (1921-2021)

Por Bruno Corrêa de Sá e Benevides

No dia 17 de janeiro de 1921, entrava em vigor o decreto n.º 4.269 criminalizando a prática do anarquismo. A norma em questão foi o resultado direto de uma longa discussão travada no Congresso Nacional brasileiro, cujo propósito foi atender a uma demanda considerada urgente pelas elites políticas republicanas, no início dos anos 1920.

A medida parlamentar, como dito, buscou reprimir a prática do anarquismo, tipificando (ou classificando) como crime alguns atos de militâncias, pondo fim ao impasse jurídico que se arrastava nos Tribunais Superiores desde o início do período republicano. Daquele momento em diante, vinha à tona um dispositivo legal especifico, no qual poderiam ser enquadrados todos aqueles que se envolvessem em ações de propaganda com o propósito de divulgar ideias anárquicas e, por meio delas, organizar sindicatos, jornais, promover greves, entre outras atividades.

Apesar da criação do decreto, cabe lembrar que os anarquistas, no Brasil, já vinham sendo constantemente reprimidos com base no próprio Código Penal de 1890 nas famigeradas contravenções, que penalizavam o ócio, a formação de sociedades consideradas secretas, o uso ilegal da tipografia e o dano à coisa pública. Além disso, sendo o militante de origem estrangeira, desde 1907, havia também a possibilidade legal¹ de decretar a sua expulsão do território nacional. Portanto, com ou sem uma lei especial, o fato é que a criminalização do anarquismo tornou-se prática comum desde a proclamação da República, em novembro de 1889. Mas com a edição de um novo dispositivo normativo, além do aumento da pena, buscava-se evitar a inconstitucionalidade e a ilegalidade de uma eventual condenação criminal sem o devido fundamento jurídico.

Com isso, os magistrados, os promotores e as autoridades policiais passavam a possuir “carta branca” para agir coercitivamente do ponto de vista legal no trato com o anarquista. Essa talvez seja a maior ironia existente no decreto 4.269 de 1921: a criminalização infundada e autoritária do movimento operário organizado sob inspiração do anarquismo é até tolerável, não é o pior dos males; mas a repressão sem a existência de uma lei prévia, dentro de um Estado de direito, é uma heresia jurídica de deixar qualquer jurista de “queixo caído”, afinal nenhum aplicador do direito ou parlamentar desejaria pesar na consciência a maldição de uma inconstitucionalidade ao ferir a garantia liberal do princípio da legalidade². Em outras palavras, a penalização em si pode até ser amoral e desumana, como a de tornar delinquentes trabalhadores que buscavam melhorias de suas condições de existência, mas inconstitucional, jamais!

Uma lei específica contra o anarquismo não foi uma “jabuticaba nacional”. Seus idealizadores, na verdade, seguiram a tendência internacional da qual participaram inúmeros países, chegando inclusive a realizarem uma Conferência, sediada em Roma, no ano de 1898, com o propósito de confeccionar um tratado cujo objetivo seria combater o movimento libertário³. Essa iniciativa de enfrentamento ao anarquismo no plano global, portanto, passou a ter grande adesão das principais nações europeias e dos Estados Unidos, ao longo das décadas de 1880 e 1890, sobretudo em razão da radicalidade protagonizada por anarquistas (ou por indivíduos que assim se intitulavam) adeptos à tática da “propaganda pelo fato”.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://ielibertarios.wordpress.com/2021/09/13/100-anos-da-lei-de-repressao-ao-anarquismo-1921-2021/?fbclid=IwAR0Xsjw4-Oc01ro15oVM7sh0Ae1rxr4PSRFY7ySKvykMuClA3OvhNVEmUSs

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sementes de algodão
agora são de vento
as minhas mãos

Nenpuku Sato

Vídeo | Milhares se manifestam em Tessalônica contra a maior feira anual da Grécia

Cerca de 5 mil pessoas – a maioria anarquistas – protestaram neste sábado (11/09) em Tessalônica, a segunda maior cidade da Grécia, contra a 85ª Feira Internacional de Tessalônica (TIF), a maior feira comercial anual do país, com pavilhões-monumentos de consumismo, concertos com cantores endinheirados, supostamente populares, e, claro, com o primeiro ministro do país, Kyriakos Mitsotakis, inaugurando a feira com declarações sobre “o futuro da economia”.

Marchas separadas

Outras forças de esquerda, como o Partido Comunista da Grécia (KKE), frente sindical PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores), ADEDY (central sindical do setor público), realizaram marchas separadas.

Policiamento ostensivo

O centro da cidade foi todo fechado ao trânsito e ocupado por cerca de 4.500 policiais para isolar a sede do evento internacional das manifestações. Não houve registros de incidentes graves.

“Curiosidade”

Aproximadamente 5 mil pessoas participaram da marcha independente, marcadamente anarquista. Tessalônica tem cerca de 300 mil habitantes. São Paulo, capital, tem cerca de 12 milhões de habitantes. Ou seja, se fossemos trazer esses números para cá, proporcionalmente teríamos uma marcha independente, fora das estruturas esquerdistas tradicionais-institucionais, com aproximadamente 200 mil pessoas. Alguém consegue imaginar em um futuro não tão distante um protesto de rua no Brasil efetivamente independente, libertário, com tais números?

O totalitarismo moderno morrerá atravessado pelas lanças dos escravos…”

>> Veja o vídeo (04:31) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=8Lw1_chOcnw&feature=emb_title

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Olhando bem
O cafezal, na verdade,
São laranjeirinhas…

Paulo Franchetti

[Espanha] Diante do aumento da conta de luz e de outros bens básicos: greve geral

Durante este ano de 2021, as tarifas de eletricidade subiram a níveis históricos. Já em janeiro deste ano, o oligopólio de eletricidade começou a subir diante da passagem da tempestade Filomena, e a luz só continuou a se tornar mais cara.

Desta vez Teresa Rivera, terceira vice-presidente do governo, anunciou um aumento de 25% na tarifa de eletricidade. O oligopólio de eletricidade na Espanha continua buscando maximizar os lucros através do aumento das tarifas e do cometimento de fraudes.

O governo não se recusa a enfrentar este oligopólio, mas é parte dele e legisla a seu favor. Muitos membros atuais das diretorias das empresas de eletricidade têm feito parte de governos sucessivos e são membros dos principais partidos políticos. Eles acabaram fazendo parte desses oligopólios graças às famosas “portas giratórias”.

Todos estes aumentos terão repercussões para aqueles que sustentam o sistema econômico capitalista: os trabalhadores. Não só as tarifas em nossas casas vão aumentar, mas o aumento do preço da eletricidade vai encarecer as necessidades básicas, como a alimentação e, portanto, o custo de vida em geral.

Em uma sociedade de classes, a empatia social não existe. A única solução viável para que nós trabalhadores não paguemos por este roubo é a organização e a greve geral, a única ferramenta para a defesa e promoção de nossos interesses de classe.

Federação Anarquista Ibérica – FAI

federacionanarquistaiberica.wordpress.com

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agência de notícias anarquistas-ana

Sob o ipê florido
embelezam de amarelo
as flores que caem.

Sandra Hiraga

[Alemanha] Independente em quem você vote, nós seremos #ingovernáveis! Chamada para ação em torno das próximas eleições

As eleições gerais da Alemanha acontecerão em 26 de setembro de 2021.

Ir às urnas significa escolher o menor de dois males. Nós não queremos escolher mal algum!

Por séculos ou mesmo milênios, nós temos lutado pela igualdade de todos os seres vivos, pela liberdade de não maltratar a nós mesmo e outros, por fraternidade ao redor do mundo!

A liberdade não pode ser conquistada através de escolhas, a liberdade sempre foi daqueles que a tomaram. Não importa que jogos de poder os governantes joguem, não vamos nos deixar ser governados!

Não deixaremos que nos proíbam de salvar pessoas em alto mar, da mesma forma que não vamos permitir que nos proíbam de criar espaços onde as pessoas possam acessar abrigo e cuidados, independente de seu poder de compra.

Nós lutamos por um clima melhor, para que todos os que virão depois de nós tenham a chance de viver no planeta no qual nós queremos proteger.

Nós não fazemos perguntas sobre suas origens. Quem você é, é importante. Onde você nasceu, não. O projeto de nação é nosso inimigo, nacionalidade é apenas um jogo dos de cima para nos dividir e enfraquecer.

Fortalecemos uns aos outros, contra qualquer autoridade!

Nós somos paramédicos, escritores, advogados, músicos, trabalhadores, anarquistas, educadores, freelancers, e tantos outros mais!

As decisões dos de cima são contra você. Se não é útil a eles, será descartado.

Nós não votamos nos tiranos e seus sistemas, pelo capitalismo e seu poder de destruição, pelo Estado autoritário e suas opressões. Nós não votamos por nada disso, lutamos por uma sociedade global sem a dominação das pessoas sobre pessoas!

Por um mundo que valha a pena ser vivido. Por um futuro cheio de significado e experiências significativas.

Nenhum governo jamais poderá nos trazer liberdade, nós jamais seremos absorvidos por suas estruturas de identidades pré-fabricadas.

Independente em quem você vote, nós seremos #ingovernáveis! Não importa quem você escolha, continuaremos sendo ingovernáveis!

Junte-se a campanha e compartilhe suas ações, eventos e práticas para o mundo que queremos construir, usando a hashtag #ungovernable

Fonte: https://de.indymedia.org/node/150877

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

entre os vinte cimos nevados
nada movia a não ser
o olho do pássaro preto

Wallace Stevens

[Espanha] Entrevista com Laura Vicente Villanueva

Entrevista realizada por Guillem Muñoz Mayoral e Laura Bonastre Farran, 06 de setembro de 2021

Laura Vicente é doutora em História pela Universidade de Zaragoza e professora de história do ensino médio. Ela é especialista em história social e história da mulher, especialmente da Espanha. Em linha com seu especial interesse pelas iniciativas sociais anarcofeministas e movimentos sociais, publicou obras como Historia del anarquismo en España (2013), Mujer contra mujer en la Cataluña insurgente: Rafaela Torrents (1838-1909) e Teresa Claramunt (1862-1931) (2018) ou La revolución de las palabras: La revista Mujeres Libres (2020). Atualmente ela também leciona um curso sobre a organização Mujeres Libres no espaço Crisi em Barcelona e faz parte da equipe editorial da revista Libre Pensamiento publicada pela CGT e da revista de história XIX y veinte.

> Formato escrito:

https://revistes.ub.edu/index.php/audens/article/view/36342

> Formato Podcast:

Spotify:

https://open.spotify.com/episode/0pEqirnbA4YDirkv98qftm?si=XHScMaX1QLGyo0IBi0_9_A&dl_branch=1

Youtube:

https://youtu.be/TEIf37u9MJs

Ivoox:

https://www.ivoox.com/entrevista-a-laura-vicente-anarcofeminismo-e-historia-audios-mp3_rf_75202821_1.html

agência de notícias anarquistas-ana

Suave impressão de asas
abrindo em tempo-semente
e pausa suspiro

Nazareth Bizutti

[Canadá] Bye Bye Johnny: Uma Estátua de John A. Macdonald é posta abaixo em Kingston

Um pouco de contexto

Nós vimos um bom número de estátuas de John A Macdonald encontrarem seu fim no ano passado. Macdonald não manda mais em Montreal, Charlottetown, Picton, e agora, nem na sua cidade natal, Kingston. Após anos de pressão popular e corpo mole do conselho municipal, Johnny Boy foi finalmente jogado no depósito de uma velha e mofada arena de hockey. Embora quiséssemos que ele fosse vendido pro ferro-velho e que o dinheiro servisse pra financiar um acampamento indígena em algum lugar, pensar no primeiríssimo Primeiro Ministro do Canadá passando seus dias ao lado de cocô de rato e protetores genitais azedos são bem divertidos.

Mas como foi que chegamos aqui? A estátua de John A. Macdonald se impunha sobre Kingston City Park por, tipo uns cem anos. Eventualmente, habitantes indígenas locais e cúmplices anti-coloniais começaram a fazer bochicho, tumultuando sua festa de aniversário e ocasionalmente vandalizando sua estátua.

Alguns velhos de kilt ficavam incomodados, o jornal local publicou um editorial falando sobre como os vândalos deveriam, literalmente, serem banhados em piche e terem o corpo coberto de penas; e a prefeitura de Kingston criou o Grupo de Trabalho pelo Legado de Sir John A. Macdonald para direcionar os esforços do conselho municipal. Após alguns anos de reuniões, consultas e discussões, a solução deles foi adicionar mais uma placa, para “contar uma versão mais completa e inclusiva” da história. Genocídio: É complicado™.

Em Kingston, a tolerância com John A. pareceu mudar um pouco lá por maio, quando 215 covas sem identificação foram encontradas na Escola Residencial para “Índios” de Kamloops. Kingstonians foram, uma vez mais forçados a confrontar sua cumplicidade em celebrar o arquiteto do sistema das escolas residenciais. Conforme ações anti-coloniais explodiram de costa à costa, pareceu inevitável que, de uma forma ou de outra, a estátua viesse abaixo.

Revolução do coração

Na tarde de 10 de junho, indígenas e não-indígenas da comunidade se encontraram na estátua de John A. no parque municipal. O evento foi organizado sob a bandeira Revolução do Coração: Uma Ação Cerimonial. O grupo acendeu uma chama sagrada e se juntou em ritual, enquanto um imenso tecido vermelho cobriu a estátua. Eles votaram por permanecer acampados até que ela fosse derrubada e substituída por um monumento em homenagem as vidas perdidas nas escolas residenciais.

Em seguida, mais barracas começaram a aparecer. Alguns gazebos foram erguidos para proteger as pessoas das intempéries e bannock fresco [1] foi distribuído entre todos. O pedestal da estátua foi pichado com carvão, com mensagens anti-coloniais fazendo menção ao número de covas nas escolas residenciais, que iam sendo atualizadas conforme outras iam sendo reportadas. O número cresceu a cada dia, conforme notícias de Brandon, Lestock, Regina e outros locais iam chegando.

O prefeito e ex-membro de culto cristão fundamentalista/pastor mirim, Bryan Paterson inevitavelmente apareceu para dar o típico discurso para boi dormir, para assegurar a todos que a polícia não seria mobilizada para dispersar o acampamento. Dado o contexto, repressão policial seria um desastre para a imagem do prefeito. A atenção logo passou de vigiar a polícia para lidar com nacionalistas brancos e legalistas putos. Essas interações geralmente eram eficientemente desescaladas, apesar de algumas terem sido bastante tensas. Em uma madrugada, um cara branco bêbado, montado numa lambreta ameaçou “voltar com umas armas”, mas suas ameaças nunca se concretizaram.

Apesar do ocasional encontro com racistas, o clima no parque municipal era festivo e animado. Todos os dias havia uma roda de tambores e danças ao redor, um fluxo constante de visitantes e apoiadores, doações o suficiente para manter todos alimentados. Mesmo que muitas das pessoas presentes ficassem satisfeitas em arrancar a estátua de John A. num só puxão, o acampamento foi uma grande oportunidade para as pessoas se reunirem e se conectarem pela primeira vez desde a pandemia.

O brochante terreno da política municipal

O acampamento parecia ter acendido uma fogueira debaixo do rabo da cidade. Uma reunião extraordinária do conselho municipal foi agendada para 16 de junho. Em 14 de junho o grupo de trabalho de John A. se encontraria para rascunhar uma nova série de recomendações. O grupo chegou ao consenso que a estátua deveria ser retirada de seu pedestal assim que possível e posta em um depósito até que novas discussões pudessem ser realizadas.

No dia da reunião, cerca de 50 pessoas se reuniram no acampamento para ouvir tudo ao vivo. Aproximadamente uma dúzia de membros da comunidade (incluindo sobreviventes de escolas residenciais e dos sixtie scoops [2]) deram discursos inspiradores sobre os motivos pelos quais a estátua deveria ser derrubada.

Então os conselheiros assumiram o palco, e rapidamente ficou nítido que ouvir 13 homens brancos debatendo o lado “bom e ruim” do legado de John A. era tão divertido quanto lamber tomada. Estavam sendo discutidas, duas opções: A) Deixar a estátua onde estava, ou B) Retirar a estátua. Mas na crocodilagem, o prefeito tinha um truque na manga. Ele propôs uma terceira opção: C) Realocar a estátua no Cemitério Cataraqui, próximo a tumba de Macdonalds. Essa opção nunca foi citada ou informada pelos conselheiros ou pelo grupo de trabalho que supostamente os guiariam nos processos decisórios.

Insistindo que esse era o único caminho para “acabar com a divisão”, Paterson eventualmente convenceu a maioria dos outros conselheiros a votarem em seu favor. A remoção da estátua deveria começar alguns dias mais tarde. Ela seria posta no depósito até que sua eventual realocação para o cemitério, durante o verão.

Uma vitória agridoce

Cerca de 150 pessoas se reuniram para testemunhar a remoção da estátua. Uma equipe de pedreiros ficou horas tentando dar um jeito pra que John A. não se tornasse Humpty Dumpty [3]. Um pequeno grupo de legalistas ficou ao redor, resmungando. Seus kilts balançavam no mesmo vento que balançava suas bandeiras britânicas. O som agudo de suas gaitas de fole era um convidado não muito bem-vindo.

A vibe do nosso lado era de celebração. Música pow-wow [4] saía do alto-falante enquanto pessoas dançavam em roda. Qualquer progresso dos pedreiros era comemorado pela multidão. Depois de várias horas, eles estacionaram um guindaste na frente da estátua, em preparação para erguê-la. Dois velhos legalistas passaram por debaixo da fita da polícia e ficaram no trajeto do guindaste. “Liberdade de assembleia!”, um gritou. Mas a convicção deles não foi páreo para encarar um policial qualquer que em 30 segundos, com uns poucos gritos, fez eles vazarem.

Com esse contratempo menor fora do caminho, a estátua foi atada e estava pronta para ir. E simples assim, nós tiramos John A. do seu pedestal, balançando pra todo lado como aquela coisa que balança pra todo lado. A platéia foi ao delírio.  Gritos por todo lado e o refrão de Stream “Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye” foi entoado repetidas vezes. A estátua foi lentamente abaixada na carroceria de um caminhão e levada pra supracitada arena de hockey.

Pra ser honesto, sabíamos que não era o fim da luta. Ninguém estava satisfeito com o resultado. As pessoas do acampamento queriam que a estátua nunca mais visse a luz do dia, juntamente com todas as outras estátuas como ela. Ainda assim, o sentimento de que o agora era um ótimo momento para ações anti-colonial era real, e os laços que foram feitos no parque pareciam que iriam facilitar muito para que outras coisas acontecessem no futuro.

Até a próxima

A cova de John A. no Cemitério de Cataraqui foi vandalizada na noite seguinte ao Dia do Canadá. Sua lápide foi coberta de tinta vermelha, e o monumento que antes mantinha sua placa foi marcado com um picho que diz “Por toda dor que você causou, queime no inferno”. A placa já havia sido removida por ter sido vandalizada.

O cemitério é propriedade privada. O local faz dinheiro através das famílias que consideram aquele um local agradável para pôr seus entes queridos para descansar. Provavelmente os gerentes estão mais preocupados com a satisfação de seus clientes do que lutar uma irritante batalha política para manter uma estátua que não para de ser vandalizada. O acordo pendente de manter a estátua deixa aberta muitas possibilidades para pressionar os diretores do cemitério para desistirem dela.

É evidente que políticos farão política. Talvez tenha se depositado muita confiança na ideia de que a burocracia municipal seria capaz de chegar num resultado satisfatório. Neoliberalismo é uma baita de uma droga, e quem usa, sempre encontra um jeito de cooptar a luta social e surgir com uma solução que “agrada a todos”. Talvez confiar na prefeitura seja uma batalha perdida, e pode ser o momento de seguir o exemplo de como o povo em Winnipeg ou Montreal lidaram com suas estátuas coloniais.

Por último, se outro acampamento surgir, seria ótimo ter algumas discussões realmente coletivas sobre segurança e desescalar conflitos. Ataques da extrema direita contra manifestantes e acampamentos são mais e mais frequentes. Apesar de às vezes esses eventos parecerem isolados nos EUA, pode acontecer e acontece aqui também. O ataque com veículo contra uma família muçulmana aconteceu uns poucos dias antes do acampamento se formar. Ainda assim, é importante não deixarmos que nossos medos nos paralisem. Vamos aspirar pelo melhor, e nos preparar para o pior.

Notas do tradutor:

[1] Bannock é um pão, de origem indígena, comum também entre campistas canadenses.

[2] Sixties Scoops foi uma série de promulgações de leis, no território do Canadá, que permitiu ao Estado sequestrar crianças indígenas e forçá-las em escolas.

[3] Humptu Dumpty.

[4] Um termo abrangente para música tradicional indígena.

Fonte: https://north-shore.info/2021/08/09/bye-bye-johnny-john-a-macdonald-statue-taken-down-in-kingston/

Tradução > 1984

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agência de notícias anarquistas-ana

O besouro rola
na bola de esterco
o tempo futuro.

Luiz Bacellar

Outro 11 de setembro no Chile

Mais uma vez a esquerda que falou, falou e falou do marxismo-leninismo e do “poder popular”, mas sem armas e sem contar com o povo, comemorará sua derrota pelo ditador Pinochet, que foi colocado no poder militar pelo socialdemocrata Allende.

Um general fascista forjado no último exército prussiano (anticomunista) do mundo, um mercenário declarado do Pentágono, mas que se esperava que fosse um “constitucionalista”. Como um flashback de 1973, ainda hoje eles acreditam que as constituições “nos defendem”.

Hoje eles não falam mais de “luta de classes”, mudaram definitivamente para a “luta eleitoral” (infinitamente menos perigosa, mas mais lucrativa e cômoda)… Eles querem –  isso sim – o de sempre, o que acreditam merecer por nascimento e mérito, isto é, por corrupção e nepotismo: poder e mais poder para administrar o capitalismo e a miséria do povo.

A esquerda quer militares “bons”, policiais “simpáticos”, tribunais “generosos, mas de mão pesada”, empresários “conscientes” e cada vez mais padres (hoje em dia eles gostam de mais evangélicos, muçulmanos e bahá’í) e, sobretudo, boas agências de publicidade e marketing digital, “think tanks” e fundações e cada vez mais fundações com acadêmicos para “estudar a realidade do país” (enganar e cooptar) para controlar as mentes e apaziguar o povo.

Esquerda e direita unidas jamais serão derrotadas!

P.P.

agência de notícias anarquistas-ana

Saltando da mesa
a tulipa
foi passear

Eugénia Tabosa

[Suíça] Em Genebra, o pensamento libertário tem a sua própria casa, a livraria Fahrenheit 451

Por Manon Pulver

A livraria Fahrenheit 451, de vocação anarquista e alternativa, constitui um verdadeiro desafio comercial. Pierre Wyrsch, antigo punk com visual comportado, compartilha aos passantes o ideal de que os livros têm a capacidade de revolucionar nossas vidas.

Um dia, uma ideia

Fahrenheit 451, livraria anarquista e alternativa. A vocação da pequena livraria genebrense localizada na rua Voltaire tem valor de manifesto. Seu nome faz referência ao romance de Bradbury (adaptado ao cinema por Truffaut) e à sociedade fictícia que proíbe a leitura e na qual uma pequena minoria de resistentes luta para salvar os livros do fogo. Na nossa realidade, nenhum auto da fé ameaça nossos leitores, ao contrário, é a massa de lançamentos que asfixia a produção literária na sua indecifrável profusão.

Estabelecida em 2009, ainda que numerosas livrarias independentes tivessem fechado as portas, Fahrenheit 451 está aberta. Admirável resistência para uma livraria especializada, aliás. E não é qualquer especialização.

Pierre Wyrsch, livreiro e libertário, propõe nas suas estantes um pouco de tudo o que se revela como uma outra maneira de pensar e de ver o mundo. O lugar vale o desvio, talvez para eliminar – com o apoio dos livros – a confusão habilmente construída em torno da anarquia.

Bem, a etimologia do termo indica a ausência de poder ou de autoridade, mas não é de maneira alguma o caos ou a desordem da qual ela, erroneamente, se tornou sinônimo. Como movimento do pensamento, a anarquia estima, ao contrário, que outras ordens são possíveis. Mais que uma organização imposta pelo poder, a anarquia tem como talante uma ordem nascida da liberdade, já que segundo Proudhon – presente nas estantes – a liberdade é a mãe da ordem e não a sua filha.

Uma vez cruzada a porta, o mestre do lugar o guiará através das diferentes temáticas que estruturam sua livraria. Ética, ecologia, economia, feminismo, mas também ficção científica e histórias em quadrinho. Há muito para fazer refletir sobre outros sistemas que não o atual.

Sobre as estantes, estes pensadores engajados estão lado a lado de outros filósofos, de textos já clássicos são vizinhos dos panfletos ou dos fascículos confidenciais com título evocadores: “O apoio-mútuo, um fator da evolução”, “Endereço a todos que não querem gerar os incômodos, mas os suprimir”, “Pela abolição da cédula de identidade”, etc. A gente colhe descobertas.

Pierre Wyrsch, antigo punk com visual comportado, é um passante discreto, animado pela crença na capacidade da leitura para revolucionar as nossas vidas e mais ainda na mudança iminente da nossa sociedade. Sua livraria é frequentada por leitores de todos os horizontes e se transforma também, às vezes, em espaço cultural para encontros com autores. Sem esquecer que podemos também comprar pelo site, muito completo. Fahrenheit 451, ou 232 graus Celsius, e, no entanto há com o que refrescar, com sabedoria, as ideias.

Livraria Fahrenheit 451. Rue Voltaire 24, 1201 Genebra

www.fahrenheit451.ch

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lua n’água
entre pétalas
alumbra o abismo

Alberto Marsicano

[Chile] Contra o oportunismo eleitoral e constituinte, luta de rua e mobilização social

48 anos após o golpe fascista e quase 2 anos após a revolta popular de outubro, nos mantemos firmes contra o esquecimento e contra o oportunismo constituinte e eleitoral que se apresentam como as “alternativas” de mudança e avanço do povo.

Em 18 de outubro de 2019, o povo tomou as ruas com um radicalismo não visto desde a resistência contra a ditadura, com demandas que iam além de reformas ou migalhas e com uma clara rejeição de todas as institucionalidades e partidos. A luta é finalmente capitalizada e suspensa pelas urnas e pelos pactos que, além dos assassinatos e dos presos políticos, mostram o processo para uma “nova constituição” e a convenção constituinte como as grandes conquistas da mobilização social.

Enquanto nos salões constituintes da ordem democrática burguesa as novas leis repressivas contra o povo estão sendo discutidas e nas cúpulas partidárias a disputa pela cadeira presidencial está em andamento, continua a disparar em plena pandemia o aumento do custo de vida que é justificado pelos bônus e migalhas que o Estado está concedendo.

As conclusões são claras: não ganhamos absolutamente nada, eles aumentaram tudo e assim seguiremos enquanto continuarmos confiando nosso futuro nas institucionalidades e nos partidos.

A esquerda e a direita que juntas salvaram Piñera nada mais são do que a continuação da política corrupta que tem governado nos últimos 30 anos e são eles que boicotaram e diluíram toda luta revolucionária do povo, o que claramente as exclui.

A luta popular por uma vida digna deve ir além das farsas constituintes e das disputas oportunistas entre esquerda e direita. Esta deve basear-se na autonomia revolucionária, na luta de rua e de classe e na mobilização social como alternativa para avançar e superar o capitalismo e sua contínua precariedade.

O legado histórico da auto-organização dos trabalhadores durante a UP [Unidade Popular], o da autodefesa proletária na resistência contra a ditadura nos anos 80 e o do assembleísmo territorial de 2019 são os caminhos que devemos estudar e tomar para conquistar a verdadeira dignidade.

CONTRA O OPORTUNISMO ELEITORAL E CONSTITUINTE.

LUTA DE RUA E MOBILIZAÇÃO SOCIAL.

CLAUDIA LOPEZ BENAIGUES E ANDRES SOTO PANTOJA PRESENTES NAS FORÇAS DA LUTA DE RUA E ANTICAPITALISTA.

Grupo de Propaganda Revolucionária – La Ruptura.

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Sobre a folha seca
as formigas atravessam
uma poça d’água

Eunice Arruda